Universidade brasileira e MERITOCRACIA

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A universidade americana de elite vendeu, por décadas, a promessa de que talento e esforço bastariam para furar o sobrenome. A Europa chegou primeiro como colonizadora da vida e depois como colonizadora do pensamento no Brasil, mas nesse segundo movimento convidada pela elite do atraso, alusão ao sociólogo Jessé Souza. Críticos como Michael Sandel, Pierre Bourdieu e Christopher Lasch já mostraram como essa promessa se inverteu: menos peso de testes padronizados, mais peso de critérios subjetivos — atividades extracurriculares, vivências internacionais, redes de contato —, e o resultado é que vantagem acumulada na infância vira “mérito” reconhecido no vestibular. Bourdieu chamou isso de capital cultural, o que passa por neutro é, na verdade, o gosto, a fala, a referência de quem já nasceu dentro do código que a instituição vai avaliar como talento.

O que esse diagnóstico raramente nomeia é que o filtro não opera só pela renda. Opera também por gênero e sexualidade — e opera muito antes da porta da universidade, lá na educação básica, onde se decide previamente quem tem o direito de existir no currículo oficial.

Jundiaí ilustra bem o paradoxo. A cidade venceu, em 2026, a etapa estadual e ficou entre os 27 melhores projetos do país no Prêmio Sebrae Prefeitura Empreendedora com o programa “Escola da Gente” — reconhecimento nacional, discurso de inovação, criança no centro da política pública. A cerimônia reuniu prefeitos, secretários municipais e gestores públicos de todos os 27 estados em Brasília. Ao mesmo tempo, segue formalmente registrada a Emenda nº 73/2017 à Lei Orgânica do município, que veda a adoção de políticas de ensino que tendam a aplicar a chamada “ideologia de gênero” nas escolas — aprovada junto com o programa Escola sem Partido, em sessão que opositores descreveram como tumultuada e sem consulta a profissionais da educação. A mesma cidade que exibe sua escola como vitrine de inovação carrega, no texto da própria lei orgânica, a vedação formal de que essa inovação alcance estudantes trans e LGBTI+.

Jundiaí não é exceção, é amostra de uma recorrência no pior sentido. Em Belo Horizonte, um projeto que restringe atividades pedagógicas sobre identidade de gênero avançou em comissão neste março. Em Foz do Iguaçu, emenda equivalente foi declarada inconstitucional pelo STF, que registrou que esse tipo de norma “enfraquece ainda mais a fronteira entre heteronormatividade e homofobia” e funciona como estratégia de silêncio e censura. O padrão se repete por dezenas de municípios, inclusive na Grande São Paulo: aprova-se a vedação, o Judiciário derruba por invasão de competência da União, e a tentativa volta na legislatura seguinte, sob outro relator, outro número de emenda. Trata-se de um ritual recorrente de marcar, na lei mais simbólica que um município possui, quem está dentro e quem está fora da comunidade que a escola se propõe a formar.

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É a mesma arquitetura descrita para a universidade americana, só que atuando mais cedo na linha de produção. Antes de qualquer aluno da rede pública de Jundiaí ou da Grande São Paulo competir por uma vaga em nome do “mérito” puro, o currículo oficial já decidiu, por emenda à lei orgânica, que parte desses alunos — travestis, pessoas trans, a infância e a adolescência LGBTI+ — não tem sua existência reconhecida como conteúdo legítimo de sala de aula. Não é falta de talento que os filtra antes da disputa, é a recusa institucional de tratar sua experiência como algo que mereça estar no programa. Tenho chamado de meritocracia elástica exatamente por expandir cada vez que um de nós se aproxima da linha de chegada.

A pergunta, se a universidade americana ainda cumpre a função histórica de impedir uma aristocracia permanente vale igual aqui, só que formulada um degrau abaixo, na educação básica de cidades que se candidatam a prêmio de inovação: que tipo de comunidade política uma escola ajuda a construir quando sua própria lei orgânica nega, por escrito, a existência de parte de quem ela deveria formar?

SARA WAGNER YORK

É psicanalista, jornalista, pedagoga, biomédica, doutora e mestra em Educação/ UERJ. PosDoc UNESP/ FAPESP. Primeira travesti a ancorar no jornalismo brasileiro. Imortal da Academia de Letras do Rio de Janeiro e percursora nas discussões das cotas trans no Brasil.

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