VOLTAR não é regressar

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Voltar é uma palavra curiosa. À primeira vista, parece significar simplesmente retornar ao lugar de onde saímos. Reencontrar a mesa, os compromissos, os horários, as pessoas, as responsabilidades e aquela quantidade quase infinita de pequenas coisas que chamamos, por conveniência, de rotina.

Mas nem sempre quem volta é a mesma pessoa que partiu. E talvez esteja aí a diferença entre voltar e regressar. Regressar é tentar ocupar novamente o mesmo lugar. Voltar pode ser chegar diferente. Depois de algum tempo afastados das atividades habituais, existe sempre aquele primeiro dia. O despertador recupera sua autoridade, a agenda reaparece com seus horários, as mensagens aguardam respostas e o trabalho, muito educadamente ou nem tanto, informa que continuou existindo durante nossa ausência.

Há pendências. Há decisões. Há reuniões. Há pessoas querendo alguma coisa. Em poucas horas, parece que nunca saímos. Talvez esse seja justamente o perigo. A rotina possui uma extraordinária capacidade de nos convencer de que nada mudou. Mas mudou.

Ainda que discretamente. Alguma coisa foi vista. Alguma experiência foi vivida. Uma conversa aconteceu. Um lugar desconhecido entrou para nossa memória. Talvez tenhamos conhecido pessoas. Talvez tenhamos conhecido melhor algumas que já estavam conosco. Talvez, sobretudo, tenhamos reencontrado alguma parte de nós mesmos que havia ficado silenciosa durante os meses de pressa.

E então voltamos. Mas não deveríamos devolver imediatamente à rotina tudo aquilo que recuperamos longe dela. Esse talvez seja um dos grandes desafios. Porque descansar durante alguns dias é relativamente fácil. Difícil é proteger, no cotidiano, aquilo que o descanso nos ensinou.

É muito simples prometer, diante de uma bela paisagem, que trabalharemos menos, viveremos melhor, cuidaremos mais de nós mesmos, encontraremos os amigos, preservaremos os afetos e faremos finalmente aquele projeto tantas vezes adiado.

O problema começa quando chega segunda-feira. Segunda-feira é uma excelente avaliadora de promessas. É quando precisamos decidir se aquilo que pensamos sobre a vida era apenas entusiasmo de viagem ou se realmente estamos dispostos a mudar alguma coisa. Talvez não seja necessário mudar tudo.

Quase nunca é. As transformações mais duradouras costumam começar pequenas. Um horário protegido. Um almoço sem telefone. Uma caminhada. Uma conversa que não será adiada. Um encontro marcado antes que a agenda fique cheia. Um projeto iniciado mesmo sem todas as garantias. Uma nova possibilidade profissional investigada. Um sonho retirado da gaveta. Pequenos movimentos.

Mas movimentos. Porque há uma diferença enorme entre desejar uma vida diferente e começar a construí-la. O desejo imagina. A escolha inaugura. E o retorno às atividades profissionais pode ser uma excelente oportunidade para essa inauguração. Trabalhar é importante. Realizar também.

Há uma satisfação legítima em produzir algo bem feito, concluir uma tarefa difícil, ensinar, aprender, criar, resolver, construir e perceber que nossa presença fez diferença em determinado lugar. O problema nunca foi necessariamente o trabalho. O problema começa quando o trabalho pretende tornar-se a vida inteira.

Vivemos em uma época curiosa, na qual estar ocupado passou a ser quase um certificado de importância. Quanto mais compromissos, melhor. Quanto menos tempo, maior parece ser o prestígio. Perguntamos a alguém como está e ouvimos, com frequência: — Correndo. Como se correr fosse um estado permanente da existência.

Talvez precisemos desconfiar um pouco disso. Nem toda agenda cheia corresponde a uma vida preenchida. Nem toda produtividade produz sentido. Nem toda conquista merece o preço que exige. Existem vitórias que nos ampliam. E existem vitórias que nos deixam tão cansados que já não conseguimos comemorá-las.

Por isso, voltar ao trabalho pode significar também reaprender o prazer de realizar. Fazer bem. Criar. Propor. Experimentar. Concluir. Celebrar. E depois ir embora. Sim, ir embora. Fechar a porta. Desligar o computador. Deixar algumas mensagens para amanhã. Porque haverá amanhã. E porque existe vida do outro lado da profissão. É ali que estão os afetos.  As pessoas que fazem com que nossas conquistas tenham testemunhas e nossas dificuldades tenham colo.

Mas os laços afetivos também precisam ser cuidados e é preciso voltar para eles. Não basta saber que alguém existe. É preciso estar. Amizades não sobrevivem indefinidamente de lembranças. Amores não deveriam ser alimentados apenas por mensagens apressadas. Afeto exige algum tipo de presença.

Uma conversa sem relógio. Um café. Uma visita. Uma pergunta feita com interesse verdadeiro. Um silêncio compartilhado sem desconforto. A disposição para conhecer novamente alguém que imaginávamos conhecer por inteiro. Porque as pessoas mudam.

Nós mudamos. E talvez uma das formas mais bonitas de amar seja permitir que o outro continue se tornando alguém. Sem aprisioná-lo na pessoa que conhecemos anos atrás. Manter laços não significa mantê-los imóveis. Significa permitir que cresçam. Alguns se fortalecem. Outros se transformam.

Há aqueles que ficam mais próximos. Há os que precisam de alguma distância. E existem também espaços que começam a se abrir para o novo. Novas pessoas. Novas ideias. Novos projetos. Novos lugares. Talvez um convite que antes recusaríamos. Uma atividade que nunca imaginamos realizar. Um ambiente no qual ainda somos desconhecidos.

Há algo especialmente bonito em entrar em lugares onde ninguém conhece nossas conquistas anteriores. Precisamos nos apresentar novamente. Escutar. Observar. Aprender. Talvez até começar de baixo em alguma coisa. Isso pode ser desconfortável.

Mas também é libertador. Porque conquistar novos espaços não significa necessariamente abandonar os antigos. Significa recusar a ideia de que nossa história já está pronta. Enquanto estivermos vivos, alguma página deveria permanecer em branco. Para uma surpresa. Para uma decisão inesperada. Para uma coragem tardia. Para aquele projeto que parecia impossível. Para uma pessoa que ainda não conhecemos. Para um lugar onde ainda não estivemos. Para alguma versão nossa que ainda não teve oportunidade de existir.

Talvez seja isso que os novos sonhos façam conosco. Eles nos devolvem futuro. E ter futuro não é apenas ter tempo pela frente.  É possuir alguma coisa pela qual desejamos chegar até lá. Um projeto. Uma viagem. Uma conquista. Um encontro. Uma mudança. Uma ideia. Pode ser algo enorme. Pode ser quase insignificante aos olhos dos outros.

Não importa. Sonhos não precisam impressionar ninguém. Precisam movimentar quem sonha. Existe enorme prazer em perceber que alguma coisa está sendo construída. Talvez ainda esteja longe. Talvez exija trabalho. Talvez fracasse. Nem todo sonho realizado será exatamente como imaginamos.

Alguns precisarão ser abandonados. Outros serão reformulados. E haverá aqueles que, surpreendentemente, nos levarão muito além do que planejávamos. É justamente aí que está a beleza: não saber completamente. Visitar o novo significa aceitar uma pequena dose de incerteza.

E isso nem sempre é confortável para quem passou muitos anos organizando a vida, assumindo responsabilidades e tentando reduzir riscos. Com o tempo, podemos nos tornar excessivamente competentes em permanecer. Permanecemos no conhecido. Nas mesmas atividades. Nos mesmos círculos.

Nas mesmas opiniões. Nos mesmos caminhos. Às vezes até nos mesmos desconfortos. Não porque sejam bons. Mas porque são conhecidos. E o conhecido possui uma falsa aparência de segurança. O novo não oferece isso. Ele pergunta. Provoca. Desorganiza. Convida. Por isso exige coragem. Não necessariamente a coragem heroica das grandes decisões.

Talvez apenas aquela coragem cotidiana de dizer: “Vou tentar. Essas duas palavras podem abrir espaços extraordinários. Vou tentar conhecer. Vou tentar aprender. Vou tentar fazer. Vou tentar participar. Vou tentar chegar. Vou tentar novamente”. Há uma proatividade muito bonita nisso.

Não aquela que transforma a pessoa numa máquina de conquistas, permanentemente insatisfeita com aquilo que possui. Essa seria apenas outra forma de aprisionamento. Falo da proatividade que nasce da curiosidade. Da vontade de participar da própria história em vez de simplesmente assistir aos dias passando. Realizar também pode ser prazer. Conquistar também pode ser leve. Avançar não precisa significar atropelar.

Podemos chegar a novos espaços sem destruir os anteriores. Podemos conhecer novas pessoas sem abandonar aquelas que amamos. Podemos sonhar novos sonhos sem desrespeitar nossa história. Podemos crescer sem negar quem fomos. Talvez amadurecer seja justamente aprender a carregar o passado sem morar permanentemente nele. Então, um dia qualquer, percebemos que retornamos.

Estamos novamente trabalhando. Cumprindo compromissos. Encontrando pessoas conhecidas. Cuidando dos nossos afetos. Mas alguma coisa está diferente. Há um projeto novo sobre mesa.  Um encontro marcado. Uma ideia sendo construída.

Talvez uma próxima viagem começando a ser imaginada. Há lugares que desejamos conhecer. Pessoas com quem queremos conversar. Coisas que ainda queremos aprender. E uma pequena alegria reaparece. Não aquela alegria explosiva que exige celebrações. Uma alegria serena. A alegria de perceber que ainda estamos em movimento.

Talvez seja essa uma das formas mais bonitas de vitalidade. Ter alguma coisa para fazer amanhã e alguma coisa para sonhar depois de amanhã. Olhar para aquilo que já construímos com gratidão, mas não transformar nossas conquistas em muros.

Preservar os afetos, sem fechar as portas para novos encontros. Valorizar os espaços conquistados, sem imaginar que sejam os únicos onde podemos existir. Voltar ao trabalho. Voltar às pessoas queridas. Voltar à rotina. Mas não regressar. Porque agora sabemos que existe mais.

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Mais para conhecer. Mais para construir. Mais para oferecer. Mais para aprender. Mais para sentir. Mais para viver. Talvez a vida não nos peça permanentemente grandes mudanças. Talvez peça apenas que não desistamos de ampliá-la. Um novo projeto. Uma nova conversa. Uma nova companhia. Um novo lugar. Uma nova conquista. Um novo sonho.

E, de vez em quando, aquela pergunta simples que impede a existência de envelhecer antes do tempo: — O que ainda não vivi? Não precisamos responder imediatamente. Talvez seja melhor assim. Porque enquanto houver alguma coisa que ainda desejamos descobrir, haverá futuro.

E enquanto houver futuro capaz de nos despertar curiosidade, haverá espaço para o prazer. Para o afeto.  Para a realização. Para novas conquistas. E para aquela alegria tranquila de perceber que a vida, apesar de tudo aquilo que já aconteceu, ainda não terminou de nos surpreender. Voltamos. Sim. Mas seguimos. E talvez seja essa a melhor maneira de voltar.(Foto: Cottonbro Studio/Pexels)

AFONSO ANTÔNIO MACHADO 

É docente e coordenador do LEPESPE, Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte, da UNESP. Leciona na Faculdade de Psicologia UNIANCHIETA. Mestre e Doutor pela UNICAMP, livre docente em Psicologia do Esporte, pela UNESP, graduado em Psicologia, editor chefe do Brazilian Journal of Sport Psychology.

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