O dia que descobri que meu TRABALHO era em outro lugar

trabalho

Sou uma pessoa com deficiência visual e trabalho no Instituto Luiz Braille. Todos os dias eu faço praticamente o mesmo ritual: pego o ônibus, desço no ponto de sempre e ando cerca de três quarteirões até chegar em frente ao instituto. Com o tempo, esse trajeto virou algo automático, quase como aquelas músicas que a gente canta sem perceber que já decorou cada palavra. Mas existe um detalhe curioso nessa rotina. Para registrar o ponto de entrada, eu preciso atravessar a rua e ir até outro prédio. Só depois disso volto para o meu setor e começo oficialmente o expediente. É uma pequena “missão burocrática” antes do café e do trabalho.

Em um desses dias comuns, eu estava fazendo meu caminho tranquilamente quando uma senhora se aproximou e se ofereceu para ajudar. Agradeci e disse que estava tudo bem, mas ela insistiu com uma convicção tão grande que parecia estar salvando alguém perdido no deserto. Como ela estava indo para o mesmo lado, acabei aceitando. Começamos a conversar enquanto caminhávamos. Aquelas conversas rápidas de rua: clima, rotina, coisas simples. Tudo corria normalmente até chegarmos em frente ao instituto.

Foi aí que a história mudou de tom. Quando expliquei que ainda precisava atravessar a rua, ela imediatamente disse com segurança:

— Não, é aqui mesmo. Você já chegou.

Expliquei educadamente que trabalho ali, mas que precisava atravessar para registrar meu ponto. Ela respondeu que eu estava enganado. Simples assim. Atravessei a rua. E ela veio junto, repetindo que eu estava indo para o lugar errado. Confesso que por um momento pensei: Será que mudaram o prédio durante a noite e esqueceram de me avisar?

Chegamos à porta do prédio onde eu precisava entrar para marcar o ponto. Antes de eu entrar, ela tentou mais uma vez:

— Moço, você está indo para o lugar errado.

Dessa vez apenas balancei a cabeça e segui. Desci, registrei meu ponto, peguei o comprovante e subi novamente. Mas o melhor ainda estava por vir. Quando cheguei na saída do prédio, lá estava ela. Parada, esperando-me. E disse, com aquele tom de quem finalmente iria provar que estava certa:

— Viu? Eu falei várias vezes que você estava indo para o lugar errado.

Sem discutir, apenas mostrei o papel do ponto marcado e segui meu caminho para trabalhar. Fim da história. Ou melhor, quase.

Porque situações como essa, apesar de até renderem uma boa risada depois, revelam algo muito comum: pessoas com deficiência — seja visual, física ou de qualquer outra natureza — ainda são vistas como se não soubessem tomar decisões simples do próprio cotidiano. Como se atravessar uma rua fosse uma aventura perigosa demais para quem faz isso todos os dias.

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A ajuda, quando vem com respeito, é sempre bem-vinda. Mas existe uma grande diferença entre ajudar e simplesmente não acreditar que o outro sabe exatamente o que está fazendo. Naquele dia eu aprendi duas coisas:

  • Primeiro: meu caminho continua o mesmo de sempre.
  • Segundo: aparentemente eu trabalho no lugar errado, apenas para uma senhora muito determinada que encontrei na rua.(Foto: Eren Li/Pexels)

JOÃO VITOR FRANCO GOUVEIA

É formado em Acessibilidade Digital, graduado em Gestão de RH e com certificação ITIL 4 Foundation, atua como monitor de informática para pessoas com deficiência visual no Instituto Jundiaiense Luiz Braille. Trabalha com tecnologia, inclusão e autonomia digital, acredita no uso da tecnologia como ferramenta de transformação social e defende que a inovação só faz sentido quando promove inclusão e acesso para todos.

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