PRESENÇAS VALIOSAS

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Vivemos uma época curiosa. Nunca tivemos tantos meios de comunicação e, paradoxalmente, nunca foi tão difícil sustentar presenças verdadeiras na vida das pessoas. As redes sociais ampliaram nossas possibilidades de contato, mas também produziram uma espécie de ilusão relacional. Sabemos o que os outros publicam, acompanhamos suas viagens, suas conquistas e suas opiniões, mas raramente sabemos como eles realmente estão. Há uma diferença profunda entre estar conectado e estar presente — e essa diferença talvez seja uma das grandes questões humanas do nosso tempo.

Presença é algo que não pode ser automatizado. Ela exige tempo, disponibilidade e, sobretudo, atenção. Estar presente significa suspender por alguns instantes a pressa do mundo para realmente perceber o outro. Significa ouvir sem preparar imediatamente uma resposta, olhar sem reduzir a pessoa à função que ela ocupa em nossa vida.

Essa qualidade de presença parece simples, mas tornou-se rara. A sociedade contemporânea nos empurra constantemente para a produtividade, para o desempenho e para a aceleração. Estamos sempre fazendo algo, resolvendo algo, respondendo algo. Nesse cenário, o tempo dedicado às pessoas corre o risco de se tornar apenas um intervalo entre tarefas.

Talvez por isso, em certas etapas da vida, começamos a perceber que algumas das relações mais significativas não nasceram de grandes acontecimentos, mas de convivências discretas. São aquelas pessoas que permanecem. Não necessariamente as mais barulhentas ou as mais visíveis, mas aquelas que, de alguma forma, continuam ali. Pessoas com quem partilhamos dúvidas, pequenas vitórias, momentos de cansaço ou de alegria inesperada.

Existe uma força silenciosa nessas presenças. Elas não resolvem todos os problemas, nem eliminam as dificuldades inevitáveis da existência. Mas oferecem algo profundamente humano: a sensação de que não atravessamos o mundo completamente sozinhos.

Essa percepção pode transformar a maneira como olhamos para nossas próprias relações. Começamos a entender que o valor de uma amizade, de uma parceria ou de um vínculo não está apenas na intensidade dos momentos extraordinários, mas na continuidade dos encontros simples. Um café partilhado, uma conversa demorada, um silêncio confortável entre duas pessoas que não precisam provar nada uma à outra.

Há sabedoria nesses pequenos rituais cotidianos. Eles nos lembram que a vida humana não é feita apenas de grandes projetos ou grandes realizações. Ela também se constrói com presenças durante os intervalos afetivos que sustentam nossa estabilidade emocional e nossa capacidade de enfrentar o mundo.

Talvez seja por isso que a maturidade nos ensine algo que a juventude muitas vezes ignora: a importância de cultivar relações com cuidado. Relações não sobrevivem apenas de afinidades iniciais. Elas exigem manutenção, paciência e uma certa generosidade. Às vezes será necessário compreender os limites do outro. Em outros momentos será preciso reconhecer os próprios limites.

Não se trata de idealizar as relações humanas — elas são imperfeitas por natureza. Mas reconhecer que, mesmo imperfeitas, elas continuam sendo um dos lugares mais férteis de nossa existência. No fundo, todos buscamos algum tipo de reconhecimento. Queremos ser vistos não apenas pelo que fazemos, mas também pelo que somos. Queremos que alguém perceba nossos esforços, nossas fragilidades e até nossas contradições.

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Quando encontramos pessoas capazes dessa percepção, algo importante acontece: sentimos que nossa história faz sentido. Talvez seja por isso que as presenças verdadeiras não precisam ser constantes para serem significativas. Basta que sejam autênticas. No final das contas, aquilo que mais permanece na memória não são as multidões que passaram por nossa vida, mas as poucas pessoas que realmente caminharam ao nosso lado.(Foto: Surface/Unplash)

AFONSO ANTÔNIO MACHADO 

É docente e coordenador do LEPESPE, Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte, da UNESP. Leciona na Faculdade de Psicologia UNIANCHIETA. Mestre e Doutor pela UNICAMP, livre docente em Psicologia do Esporte, pela UNESP, graduado em Psicologia, editor chefe do Brazilian Journal of Sport Psychology.

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