ERIKA HILTON e o pânico dos homens

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Debates públicos ainda expõem a tentativa de controlar quem pode existir, falar e representar as mulheres. Há um tipo de silêncio que não é a ausência de fala. É falta de escuta. E é exatamente isso que estamos vendo, mais uma vez, no debate que vem acontecendo na Câmara Municipal de Jundiaí em relação a Erika Hilton à frente da Comissão das Mulheres da Câmara dos Deputados. Homens — historicamente autorizados a legislar, opinar, definir e controlar — se reúnem para lamentar por nós. Pelas mulheres. Pela nossa dor, pela nossa representação, por aquilo que, segundo eles, deveria nos indignar. Mas não nos perguntam, não nos escutam, não nos reconhecem.

O que se desenha nesse debate não é preocupação com as mulheres. É o pânico diante da perda de monopólio sobre a nossa narrativa. Porque, quando uma mulher trans ocupa — ou quando se discute sua legitimidade para ocupar — um espaço de fala sobre direitos das mulheres como acontece agora com Erika, o que está em jogo não é biologia. É poder. E poder, quando compartilhado, incomoda.

A crítica que tenta se sustentar em uma suposta “defesa das mulheres” carrega, na verdade, uma velha estratégia: definir quem pode ser considerada mulher, delimitar quem tem legitimidade para falar, criar fronteiras onde antes havia luta coletiva. E é curioso — para não dizer revelador — que esses limites sejam traçados, mais uma vez, por homens.

Homens que nunca precisaram justificar sua existência em um banheiro, que nunca tiveram seus corpos debatidos em plenário, que nunca precisaram explicar, reiteradamente, que são quem dizem ser. E, ainda assim, se colocam como intérpretes autorizados daquilo que sentimos.

A alegação de que “um corpo que não nasceu biologicamente feminino não pode compreender a dor de uma mulher” não é apenas simplista — é perigosamente conveniente. Porque ignora, deliberadamente, que a dor feminina nunca foi homogênea. A mulher periférica não vive a mesma dor da mulher rica. A mulher negra não atravessa o mundo como a mulher branca. A mulher lésbica não ocupa o mesmo espaço que a mulher heterossexual — e, ainda assim, ninguém ousa dizer que uma não pode falar pelas outras.

Por que, então, a presença concreta de mulheres trans nesses espaços causa tanto desconforto?

Talvez porque elas escancarem algo que muitos preferem manter intacto: o gênero sempre foi uma construção social rigidamente vigiada — e que pode, sim, ser subvertida. E isso ameaça. Não as mulheres, mas o sistema que sempre lucrou com a definição estreita do que é ser mulher.

Há, hoje, uma mulher trans ocupando uma cadeira na Câmara Municipal de Jundiaí, eleita legitimamente pela população: a vereadora Carla Basílio. E é justamente nesse contexto que o debate levado ao plenário se torna ainda mais grave. Porque, ao questionar — direta ou indiretamente — a legitimidade de mulheres trans em espaços de representação e discussão de direitos, não se está fazendo um debate abstrato. Está se produzindo, em tempo real, uma afronta à existência, à trajetória e à presença dessa vereadora. Uma afronta à democracia que a colocou ali, ao voto que a legitimou e à própria ideia de representatividade.

Não é sobre hipótese. É sobre uma mulher real. E é também sobre um padrão.

Não faz tanto tempo assim que a própria Comissão da Mulher da Câmara Municipal de São Paulo foi alvo de críticas por ser composta exclusivamente por homens. Nenhuma mulher. Nenhuma. O que exatamente está sendo protegido quando homens ocupam integralmente um espaço criado para discutir direitos das mulheres? Que tipo de “defesa” é essa que prescinde da nossa presença? Quem autorizou essa mediação? Quem sustenta essa lógica? E, mais importante: a quem ela serve?

Não se trata de um caso isolado. Trata-se de um padrão em que corpos femininos — sejam de mulheres cis ou trans — seguem sendo territórios de disputa, regulação e controle. Um padrão em que homens não apenas opinam sobre nossas vidas, mas institucionalizam essas opiniões por meio de cargos públicos, com o peso da legitimidade política.

Não é só discurso. É estrutura. É poder organizado. É o uso da função pública para validar a velha prática de decidir por nós: dizer quem somos, dizer o que sentimos, dizer o que nos representa — e, quando não corresponde às expectativas, deslegitimar.

Dizer que Erika Hilton, uma mulher trans, não pode compreender as dores de ser mulher é ignorar que ela, muitas vezes, enfrenta violências ainda mais brutais justamente por ousar existir fora do padrão imposto. É ignorar que ela também é alvo de misoginia, de controle sobre o corpo, de violência simbólica e física. É ignorar que o problema nunca foi a dor, mas quem tem permissão para nomeá-la.

E é aqui que precisamos inverter o lamento.

Nós é que lamentamos. Lamentamos que, em pleno debate público, ainda sejamos atravessadas por discursos que nos silenciam. Lamentamos que homens ainda se sintam autorizados a decidir o que nos representa. Lamentamos que a diversidade das experiências femininas seja tratada como ameaça, e não como potência.

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Porque não há nada mais violento do que alguém dizer, com convicção, o que você deveria sentir — sem nunca ter perguntado, sem nunca ter ouvido, sem nunca ter estado.

Se há algo que realmente deveria ser lamentado, não é a presença de uma mulher trans em espaços de construção política. É a permanência de vozes que insistem em falar por nós, como se ainda não tivéssemos aprendido a falar por nós mesmas. Mas aprendemos. E não vamos desaprender.

ANDRÉIA MELO

É guarda municipal há 14 anos, especialista em atendimento humanizado às mulheres em situação de violência. Idealizadora e presidente da Casa de Alices – Centro de Atendimento e Acolhimento à Mulher. Atuou como vice-presidente do CAIS Jundiaí. Idealizadora do Programa Guardiã Maria da Penha onde atuou como coordenadora por 2 anos, instrutora na formação de profissionais da segurança pública em violência de gênero e direitos humanos, unindo experiência prática e reflexão jurídica no enfrentamento das desigualdades estruturais. E-mail: andreiamelo.casadealices@gmail.com. Telefone: 11 975559986. Conheça a Casa de Alices clicando aqui.

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