Literatura: VOZES NEGRAS na Primeira Infância

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Precisamos refletir sobre o impacto dos contextos literários na educação infantil, uma vez que a literatura atua como agente essencial no resgate histórico e cultural de diferentes povos. As obras literárias nos permitem acessar diversos campos — intelectual, cultural, social e político —, ampliando nossa compreensão e promovendo reflexão diante dos acontecimentos. Portanto, não se trata de mero entretenimento, mas sim de uma potente ferramenta de transformação social, que deve, também, dar voz àqueles que vivem em situação de vulnerabilidade e enfrentam desigualdades.

Nesse contexto, ao atuar na educação infantil com foco na literatura, observo uma lacuna significativa na oferta de obras infantis e infantojuvenis que abordem, com crianças pequenas, temas como diversidade cultural e étnico-racial, bem como o legado de povos que influenciam diretamente nossa formação social.

Além disso, no cotidiano, poucas crianças têm acesso aos livros fora do ambiente escolar. Essa realidade é compreensível, pois o universo literário ainda se apresenta, muitas vezes, como elitista e segregador. Entre as diversas barreiras, destaca-se a econômica, que limita o acesso das famílias de baixa renda ao amplo campo bibliográfico.

No âmbito escolar, por sua vez, também há insuficiência de acervos que contemplem a diversidade, que representem diferentes identidades e que abordem questões raciais a partir da vivência de autores negros e indígenas, com propostas verdadeiramente inclusivas.

Diante dessa realidade, desenvolvi o Projeto de Igualdade Racial nas Escolas, fundamentado nas Leis 10.639/03 e 11.645/08. A proposta busca resgatar identidades e fortalecer a representatividade das culturas afro-brasileira e indígena. Nesse sentido, direciono meu olhar para obras literárias que promovam a visibilidade de autores representativos dessas etnias, permitindo que as histórias apresentadas insiram a criança no contexto do mundo real.

Assim, a intenção é promover a compreensão de que existem diferentes povos, culturas e modos de vida, incentivando o respeito à diversidade, já que somos profundamente influenciados por múltiplas heranças culturais.

Como parte desse processo, e a partir de pesquisas que fortalecem a educação étnico-racial, escrevi o livro Os Olhos Azuis do Menino de Bantu. A obra narra a história de Malik, um menino africano de olhos azuis, falante do dialeto bantu, e propõe uma reflexão sobre identidade, pertencimento e diversidade.

Ao contribuir com obras cujas narrativas são construídas a partir das vivências reais dos autores, o diálogo passa a nascer da “Escrevivência”, conceito adotado por Conceição Evaristo, possibilitando o acesso ao lugar de fala de quem também deseja ser representado.

Dessa forma, a literatura torna-se um espaço de reconhecimento, autenticidade e transformação. Quero que minha obra transmita a pluralidade e a riqueza cultural dos povos africanos, evidenciando como nossas trajetórias se cruzam e se entrelaçam, sustentando costumes, fortalecendo identidades e reafirmando aquilo que somos enquanto nação.

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Assim, promover a representatividade na literatura infantil não é apenas uma escolha pedagógica, mas também um compromisso social. Ao garantir que todas as crianças se vejam nas histórias que leem, contribuímos para a formação de sujeitos mais conscientes, empáticos e seguros de sua identidade. Afinal, a representatividade cultural também é um ato de justiça e reparação histórica — e começa, essencialmente, na educação.

ROSEMARY DA SILVA

Conferencista Nacional na Promoção  de  Políticas Públicas Étnico-Raciais. Formada em Direito pela Unianchieta, atua na Educação Infantil com o Projeto Igualdade Racial Nas Escolas. Escritora premiada na categoria  literatura infantil com o livro “Os Olhos Azuis Do Menino de Bantu”. Acompanhe seu trabalho pelo Instagram @rosemaryda96.

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