RUI CARLOS: O obuseiro, a Puma e fotos com bom humor

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Ainda nos anos 1990, um novo laboratorista foi contratado. Um cara baixinho (praticamente um padrão do setor), mas com um gigantesco humor, empatia e uma risada frouxa e aguda, daquelas que estouram como flash em ambiente escuro. Era o Rui Carlos, que tem na alegria seu cartão de visita. Chegou ao laboratório fotográfico meio perdido no minúsculo quarto escuro do Jornal da Cidade, entre reveladores, fixadores e rolos de filme — cada fotograma tratado quase como munição contada.

Se tinha balada pós-expediente, Rui estava a postos, pronto para entrar em ação na pista de dança, tomar bons drinques e ainda me girar no ar. Nessa época, eu era leve como pena, duro igual tábua, e o danado conseguia me virar por cima dele. Fazíamos isso na antiga Vênus, do amigo Reginaldo de Castro, ou em qualquer lugar — porque, no fundo, a gente sempre gostou de plateia. Hoje, confesso, nem com reabastecimento e troca de pneus isso seria possível.

Em uma sexta-feira à tarde, recebi um convite do comandante do antigo 12º Grupo de Artilharia de Campanha(12º GAC), Luís Antonio Alcoforado, para acompanhar, no domingo, um exercício em Piracaia, nas proximidades da Represa Jaguari, com disparo de obuses. Pauta daquelas que não se recusa.

Conversei com o chefe de reportagem, Luiz Alberto Lessi, que já enxergou ali uma matéria especial — daquelas com muitas linhas e, principalmente, muitas fotos. O problema era simples: quem iria fotografar? Domingo não era exatamente dia de equipe completa, salvo em caso de “emergência”. E aparentemente obuseiro(canhão na linguagem dos militares)ainda não entrava nesse critério formal.

Pedi um tempo e fui falar com o Rui(foto ao lado) no laboratório. Sabia que ele tinha equipamento e, mais importante, disposição. Topou na hora — coisa de quem entende a pauta antes mesmo de ela ser totalmente revelada. Lessi comunicou o chefe dos fotógrafos, Mário Luiz Vassalo (no estilo direto, sem pedir autorização — apenas informando, como quem dá ordem de missão).

Tudo certo, nos encontramos no quartel às 7h da manhã de domingo. Embarcamos no ônibus fretado e seguimos para a área de tiro. No transporte, familiares e convidados acompanhavam a operação. Os soldados precisavam calcular a trajetória do projétil e acertar um alvo em uma ilhota no meio da represa, a alguns quilômetros dali — precisão de dar inveja a qualquer teleobjetiva.

Eles já estavam no local desde sexta-feira, em comboio, levando canhões, equipamentos e tudo o necessário para montar acampamento e rancho. Ao chegar, encontrei o coronel Alcoforado e comecei a entrevista. E aqui vale registrar um detalhe técnico importante: eu estava de costas para o canhão(guarde isso!!!)

Rui fazia algumas fotos, com parcimônia — afinal, filme não era infinito e o almoxarifado sempre operava no limite do orçamento, como uma equipe de F1 gerenciando pneus. Em determinado momento, o coronel começou a recuar. Rui fez o mesmo. E então ouvimos o comando: “VAI DISPARAR”.

Talvez por efeito de sono ou falha de cálculo digna de estratégia mal executada, recuei — mas na direção errada, indo de costas na direção do canhão. Quando o obuseiro dispara, o chão treme. E quem está perto sente — ou aprende. Eu tive as duas experiências ao mesmo tempo: quase caí e praticamente perdi a audição por alguns segundos.

Depois, ao olhar para frente, vi o coronel e o Rui com cara de espanto e com o pensamento: ‘qual o motivo do maluco ir para o lado do obus?”. Se eu tivesse dado mais alguns passos, teria encontrado a peça de recuo do obus de uma forma nada recomendada pelos manuais. Meu anjo da guarda, naquele dia, claramente estava em regime de plantão reforçado.

Passado o susto e já devidamente reposicionado fora da “zona de impacto”, Rui teve uma ideia: fotografar por trás do obuseiro, registrando o projétil após o disparo. Um clique difícil, de timing preciso. E não é que ele conseguiu? A expectativa era grande, mas só fomos confirmar na segunda-feira — porque o jornal não funcionava aos domingos e, naquela época, não existia “preview”. E lá estava: o projétil registrado no alto, congelado no tempo.

Depois dessa aventura, e com a competência que já era evidente, e muitas outras coberturas, Rui passou a fotógrafo definitivamente, acompanhando pautas da redação, sociais e comerciais. Nessa época, ele comprou uma Puma conversível dourada, que protagonizou uma das melhores pegadinhas do jornal, liderada pelo editor-chefe Alcir de Oliveira, com minha ajuda e do Ronaldo Verdile.

Rui chegou por volta das 20h, estacionou devidamente correto na Praça da Bandeira, alinhando o carro entre um poste de iluminação e um de ferro. Desceu com seus rolos de filme e entrou no jornal. Nós três estávamos lá fora, sentados na soleira do balcão de anúncios do JC que fechava às 18h, para o tradicional cigarro do fechamento. Alcir olhou e disse: “Será que cabe?”

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Sem entender muito, atravessamos a rua e fomos até lá. E, como em um pit stop silencioso, encaixamos a Puma perfeitamente entre os dois postes — metade na rua, metade na calçada. Voltamos a soleira e esperamos.

Rui saiu, passou por nós, cumprimentou e foi até o carro. Quando chegou, travou. Mãos na cabeça, expressão de quem revisa mentalmente cada movimento: “como eu fiz isso?”

Achou que tinha feito a baliza perfeita da história — sem encostar em nada. Aí foi gargalhada geral.

Ajudamos a “manobrar” o carro de volta e ele saiu rumo ao Jardim Planalto — sem cantar pneu, mas com dignidade. E nós voltamos para o fechamento das edições, porque no jornalismo, diferente de corrida, não tem bandeirada final.

MIGUEL ÉDI GOMES

É jundiaiense, tem 54 anos. É formado em jornalismo pela UniFaccamp e atualmente faz parte da equipe da Assessoria de Imprensa da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo.

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