Ônibus X ESPIRRO: O dia em que descobri que era seguido

ônibus

Quando eu tinha 15 anos, resolvi que já estava mais do que na hora de assumir o controle da minha própria vida. Eu já trabalhava, ganhava meu dinheiro e, na minha cabeça, só faltava um detalhe simples: começar a pegar ônibus sozinho. Simples para mim. Para a minha família, parecia que eu tinha decidido atravessar o oceano nadando.

Sou uma pessoa com deficiência visual e naquela época a minha autonomia ainda estava nascendo, meio cambaleante, igual filhote de girafa tentando ficar de pé. Eu carregava comigo duas coisas inseparáveis: a bengala e uma ansiedade que fazia parecer que o mundo lá fora era um campo minado.

Mesmo assim, eu queria ir. O ponto de ônibus ficava a uns 50 metros da minha casa. Cinquenta!!! Dava praticamente pra ir de chinelo arrastando e ainda chegar antes do ônibus. E o melhor: dava pra ver o ponto da minha casa. Ou seja, na minha lógica impecável, não tinha erro. Mas convencer a família disso foi outra história.

Depois de muita conversa, argumentos e provavelmente uns 30% de insistência e 70% de teimosia, consegui a tão sonhada autorização. Só que tinha um detalhe que eu não sabia. Nas primeiras semanas, eu achava que estava arrasando. Saía de casa, todo independente, bengala firme, ouvido atento, postura de quem já dominava o trajeto. Eu me sentia praticamente um explorador urbano.

O que eu não sabia é que, atrás de mim, estava acontecendo uma verdadeira operação secreta familiar. Sempre tinha alguém me seguindo. Disfarçados? Nem tanto. Silenciosos? Tentavam. Eficientes? Até que sim… por um tempo. Até que um belo dia, no meio do meu trajeto triunfal até o ponto, eu ouvi um som inconfundível. Um espirro.

Mas não foi qualquer espirro. Foi aquele espirro clássico de mãe. Forte, sincero, impossível de ignorar e com uma identidade própria. Na hora eu pensei: “Ué… conheço esse espirro”. Parei. Virei levemente a cabeça. Silêncio constrangedor do outro lado. Dei mais dois passos. Outro barulhinho suspeito. Pronto. Liguei os pontos.

Naquele momento, descobri que eu não estava exatamente sozinho. Eu estava, na verdade, sendo acompanhado por uma equipe de segurança altamente dedicada… e nada discreta. Não fiquei bravo. Também não fiquei surpreso. Na verdade, achei graça.

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Porque naquele espirro, eu percebi duas coisas ao mesmo tempo: que eu estava pronto para caminhar sozinho… e que, mesmo quando a gente começa a andar por conta própria, sempre vai ter alguém por perto — nem que seja escondido atrás de um muro, tentando não espirrar.

Depois daquele dia, continuei indo sozinho. De verdade. Mas até hoje, toda vez que ouço um espirro no meio da rua, eu fico atento. Vai que a operação voltou.(Foto: Gemini)

JOÃO VITOR FRANCO GOUVEIA

É formado em Acessibilidade Digital, graduado em Gestão de RH e com certificação ITIL 4 Foundation, atua como monitor de informática para pessoas com deficiência visual no Instituto Jundiaiense Luiz Braille. Trabalha com tecnologia, inclusão e autonomia digital, acredita no uso da tecnologia como ferramenta de transformação social e defende que a inovação só faz sentido quando promove inclusão e acesso para todos.

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