Existe uma crença curiosa por aí: a de que a pessoa com deficiência visual, ao perder a visão, automaticamente ganha um “upgrade” de super-herói. Tipo um pacote premium com audição nível morcego, faro de detetive e radar embutido. Aí, a pessoa pensa que pode perguntar: “adivinha quem é” e terá a resposta de bate-pronto. Bonito no filme, mas na vida real… calma lá.
Sim, a audição passa a ser essencial. A gente depende dela muito mais, claro. Mas isso não quer dizer que, de repente, conseguimos identificar o vizinho do 302 só pelo som do chinelo arrastando no corredor. Existe até um fenômeno chamado neuroplasticidade — explicando de forma simples, é quando áreas do cérebro antes usadas pela visão podem ser redirecionadas para outras funções, como a audição. Só que isso não transforma ninguém em um X-Men do ouvido. Ajuda, mas não faz milagre.
E foi aí que, esses dias, no meio do centro, vivendo minha vida tranquilamente com minha esposa, um cidadão passou por mim e mandou um animado: “E aí, tudo bem?”. Eu, educado, respondi no automático. Mas o detalhe importante: ele não disse quem era. E seguiu a vida, provavelmente convencido de que eu reconheci perfeitamente.
Agora me diz: como?
Existe sim um reconhecimento por voz. Quando você conversa com alguém com frequência, em ambientes parecidos, fica mais fácil identificar. Mas muda o ambiente — o barulho, o eco, o contexto — e pronto, o “GPS humano” já começa a recalcular rota. Aquela pessoa que você conhece do trabalho pode virar um completo desconhecido se te encontrar em um teatro, no meio de outras vozes, sons e distrações.
E aí entra o clássico, o temido, o inevitável: “Adivinha quem é!”.
Meu amigo, não faça isso.
Além de não ajudar, ainda coloca a gente numa situação meio constrangedora. Porque ou a pessoa arrisca e erra feio, ou fica naquele silêncio educado, torcendo pra você dar alguma pista. E às vezes até sabemos, mas bate aquela dúvida cruel: “E se não for?” Aí a gente prefere não pagar esse mico ao vivo e em cores — ou melhor, só ao vivo mesmo.
LEIA OUTROS ARTIGOS DE JOÃO VITOR FRANCO GOUVEIA CLICANDO AQUI
Então fica aqui uma dica simples, prática e cheia de amor ao próximo: ao cumprimentar alguém com deficiência visual, diga seu nome. Simples assim. Sem joguinho, sem suspense, sem pegadinha.
Porque, no fim das contas, nossa vida já exige atenção constante a tudo ao redor: sons, passos, vozes, movimentos. Não precisa transformar um simples “oi” em um desafio nível hard. A gente não tem superpoder. Mas com uma ajudinha básica de identificação… a convivência vira coisa de outro mundo — no melhor sentido possível.(Foto: Manuel Bonadeo/Unplash)

JOÃO VITOR FRANCO GOUVEIA
É formado em Acessibilidade Digital, graduado em Gestão de RH e com certificação ITIL 4 Foundation, atua como monitor de informática para pessoas com deficiência visual no Instituto Jundiaiense Luiz Braille. Trabalha com tecnologia, inclusão e autonomia digital, acredita no uso da tecnologia como ferramenta de transformação social e defende que a inovação só faz sentido quando promove inclusão e acesso para todos.
VEJA TAMBÉM
PUBLICIDADE LEGAL É NO JUNDIAÍ AGORA
ACESSE O FACEBOOK DO JUNDIAÍ AGORA: NOTÍCIAS, DIVERSÃO E PROMOÇÕES










