A IA e o risco de colapso no consumo

ia

O mercado global observa, com uma mistura de entusiasmo e apreensão, a ascensão da Inteligência Artificial Generativa. No entanto, o que estudos recentes como o da Universidade da Pensilvânia revelam é uma armadilha econômica perigosa, ou seja, empresas estão demitindo em antecipação a uma produtividade que a IA ainda não entregou plenamente, se entregará… No Brasil, essa tendência ganha contornos dramáticos, onde o enxugamento de quadros ocorre sem qualquer plano de reestruturação ou infraestrutura para a requalificação, ameaçando colapsar a geração de renda e o consumo.

Oficialmente, o Brasil apresenta índices de desemprego considerados baixos. Todavia, esses números mascaram uma realidade perversa. O fenômeno do desalento e a migração em massa para o empreendedorismo informal, muitas vezes uma forma eufemística para a sobrevivência precária, retiram milhões de brasileiros das estatísticas de desemprego do IBGE. Segundo dados da PNAD Contínua, embora a taxa de desocupação flutue em níveis historicamente baixos, a subutilização da força de trabalho e a informalidade atingem patamares que beiram os 40%.

Essa massa de empreendedores por necessidade não possui estabilidade financeira nem benefícios. Ao somarmos a isso as demissões em níveis gerenciais e técnicos causadas pela automação e pela pressão de competitividade internacional, criamos um exército de invisíveis que, embora não constem no índice oficial de desemprego, possuem um poder de compra drasticamente reduzido, enquanto isso, a economia desacelera e o emprego reduziu… cadê o efeito econômico positivo dessa taxa baixa de desemprego… gente endividada? Sim, também.

O estudo de Falk e Tsoukalas aponta que a armadilha da IA, ocorre quando empresas demitem para reduzir custos fixos, baseando-se em sinais de mercado e não na eficiência real. No Brasil, a falta de planejamento estratégico torna esse movimento ainda mais caótico. Diferente de economias desenvolvidas, não temos uma infraestrutura de reskilling (requalificação) robusta. O resultado é um problema crônico de recontratação, é o seguinte, o profissional demitido pela automação não encontra meios de se tornar o operador da IA que o mercado passará a exigir, mesmo fazendo um monte de cursinhos de Youtube, Udemy, Coursera, e as grandes bigtechs por aí. De fato, precisamos de programa de governo que funcione de verdade.

Quando o setor de serviços e a indústria brasileira enxugam suas folhas de pagamento sem um plano de transição, eles ignoram o efeito macroeconômico, eu explico, o consumo de produtos e serviços depende da renda do trabalhador. Se a automação não gerar novas tarefas e apenas substituir humanos, o ciclo de consumo se interrompe. Sem salários, não há demanda; sem demanda, o investimento em tecnologia torna-se injustificável, levando a economia a um equilíbrio de baixo crescimento. O governo brasileiro enfrenta um desafio hercúleo que vai além da propaganda de índices positivos. É urgente a criação de políticas públicas que incentivem a IA de complementariedade em vez da IA de substituição. É necessário taxar a automação predatória ou, ao menos, oferecer incentivos fiscais para empresas que comprovem investimentos na transição de carreira de seus colaboradores, ou ainda, realmente decolar com a criação do programa de renda mínima atualizável.

PARA LER OUTROS ARTIGOS DE ARTUR MARQUES JR CLIQUE AQUI

A competição internacional exige eficiência, mas a eficiência que destrói sua própria base de consumidores é um suicídio corporativo a longo prazo. O Brasil não pode se dar ao luxo de aumentar seu exército de desempregados ocultos em nome de uma modernização sem estrutura. O colapso do consumo está no horizonte se não trocarmos o chicote da autocrítica corporativa por um planejamento estratégico que enxergue o ser humano como o elo central da produtividade.(Foto: Cottonbro Studio/Pexels) 

ARTUR MARQUES JR

É cientista de dados e especialista em IA aplicada, com sólida atuação em educação digital e inovação. Coordena a pós-graduação digital na Cruzeiro do Sul Educacional e é PhD em Ensino de Matemática, Mestre em Física Computacional e Astrofísica. Atua como palestrante, mentor, cofundador do Grape Valley, é VP Fiscal do Hospital do GRENDACC e já foi VP da DAMA Brasil.

VEJA TAMBÉM

PUBLICIDADE LEGAL É NO JUNDIAÍ AGORA

ACESSE O FACEBOOK DO JUNDIAÍ AGORA: NOTÍCIAS, DIVERSÃO E PROMOÇÕES