Na última quinzena trouxe para este espaço o debate sobre como a saúde mental se conecta com a pauta ecológica, meio ambiente, e vice e versa. Hoje trago um caso concreto, para que possamos elaborar em conjunto a ideia, da semana passada, conectando com a realidade atual de territórios e povos. Em Perus existe uma proposta de construção, instalação, de um incinerador de lixo, resíduo sólido. Esta proposta vem sendo amplamente discutida pela população, pelos moradores do entorno e pelos movimentos sociais.
Para falar sobre o assunto vamos iniciar com dois questionamentos. Produzimos o necessário para viver ou produzimos muito além do que necessitaríamos? Nós não produzimos lixo em excesso? Respondo que produzimos além do que necessitamos, e sim, produzimos (como resultado) lixo em excesso.
Vivemos hoje no que conhecemos popularmente como sociedade do consumo. O sistema em que vivemos atualmente leva a produção excessiva, para um consumo excessivo, produzindo lixo, resíduo sólido, além do que o planeta da conta. Além de consumir o meio ambiente além do que os ecossistemas dão conta também, levando o mundo à um processo de extinção em massa de espécies animais.
E então, o que fazer para solucionar a problemática do lixo? Quais respostas temos de nossos governantes aliados a grandes empresários do lixo e da construção civil? No momento São Paulo deu a solução que responde ao sistema, reforçando e aprofundando ainda mais o racismo ambiental: A incineração de lixo.
Hoje existem projetos de incineração em Barueri, que é o que está em estágio mais avançado de instalação, São Mateus, que teve uma vitória recente da população, sendo barrado pelo judiciário, e em Perus, que é um território que sofreu e sofre constantemente pelo racismo ambiental, com empresas de cimento extremamente poluentes e instalação de aterros. Agora mais um projeto de morte surge para o território.
A incineração de resíduos gera uma série de poluentes atmosféricos potencialmente perigosos, incluindo:
- Dioxinas e furanos;
- Metais pesados (mercúrio, chumbo, cádmio);
- Material particulado ultrafino (PM2.5 e PM0.1);
- Óxidos de nitrogênio (NOx);
- Compostos orgânicos persistentes;
- Gases ácidos.
Segundo a revisão, populações que vivem próximas a incineradores apresentam, em diversos estudos, associação com:
- Maior incidência de alguns tipos de câncer;
- Problemas respiratórios;
- Doenças cardiovasculares;
- Alterações hormonais e endócrinas;
- Aumento de alergias;
- Malformações congênitas;
- Problemas reprodutivos e de desenvolvimento infantil.
O relatório ressalta que parte das pesquisas analisou incineradores antigos, porém também identifica efeitos observados em instalações modernas, especialmente relacionados a partículas ultrafinas e poluentes persistentes (global.noharm.org). Por que projetos tão nocivos são pensados para os territórios mais vulnerabilizados? Por que nunca projetos que pensem o desenvolvimento humano dessas regiões efetivamente? A resposta eu dei acima. É Racismo. Nesse caso, racismo ambiental.
Nesse território, além da periferia, existem aldeias Guaranis no Jaraguá, uma Acampamento do MST (Comuna da Terra Irmã Alberta), produzindo alimentos da agroecologia, orgânicos, produzindo vida. Ambos os povos, indígenas e sem terras, protegem e recuperam o mesmo corredor ecológico, cuidam e preservam o Cinturão Verde Guarani, importante remanescente de mata atlântica, que conecta territórios, resistindo ao sistema que produz ilhas verdes sem conectividade, que mata a vida aos poucos.
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Periferia, aldeias, acampamentos, assentamentos se uniram aos movimentos sociais para dizer um grande não à esses projetos de morte. Por todas as formas de vida, pelo solo, pelas águas, pelo ar, pela floresta e pelos alimentos, os povos se uniram e disseram não. A resposta vem sendo da rua.
Será que Jundiaí ainda verá um projeto de incineração chegar em nosso território? Como responderemos? Vamos acompanhar esse debate com conjunto? Hoje, às 18:30h, na Câmara Municipal de São Paulo, haverá uma Audiência Pública para debate do tema e estaremos presentes junto aos povos para defesa dos povos e da terra.(Foto: Sheyla Melo)

JULIANA OLIVEIRA
É advogada, orientadora social, alfabetizadora popular e presidente do Coletivo Japy, movimento social fundado em 2021 para atuação no território nas pautas socioambientais.
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