Existem períodos em que a vida parece pequena demais. Não porque realmente seja, mas porque passamos tempo demais circulando pelos mesmos lugares, encontrando as mesmas pessoas, enfrentando os mesmos problemas e repetindo perguntas para as quais já não encontramos respostas. O trabalho ocupa uma parte considerável dos pensamentos. As relações afetivas ocupam outra. Entre cobranças, compromissos, expectativas, mensagens, silêncios, responsabilidades e pequenas frustrações, os dias começam a se parecer excessivamente uns com os outros. Nada de novo acontece.
Acordamos. Resolvemos. Respondemos. Tentamos. Esperamos. Dormimos. E recomeçamos. Até que, em algum momento, surge uma vontade aparentemente simples: ir para algum lugar. Não necessariamente fugir. Apenas ir. Há uma diferença imensa entre fugir da vida e movimentar-se dentro dela. Quem foge deseja desaparecer. Quem viaja, algumas vezes, deseja apenas descobrir se ainda consegue se surpreender. Então vem a viagem. Uma mala sem grandes pretensões. Algumas roupas escolhidas sem muita cerimônia. Uma estrada, um aeroporto, uma estação, um destino que não precisa sequer ser extraordinário.
O importante é que seja outro. Outro quarto. Outra janela. Outras ruas. Outros rostos. Outros horários. Outra maneira de tomar café pela manhã. E talvez exista algo profundamente terapêutico nessa pequena desorganização das certezas. Porque o conhecido também cansa. Então, que venha o novo! Até aquilo que amamos pode, em determinados períodos, tornar-se pesado quando é vivido sem intervalos. O trabalho que um dia trouxe entusiasmo pode começar a produzir exaustão. A relação que oferecia acolhimento pode atravessar períodos de distância.
As pessoas que conhecem nossa história podem, sem intenção, continuar nos tratando como alguém que já não somos completamente. E nós mesmos podemos nos tornar repetitivos diante da própria existência. É quando o novo chega. Não como solução. Como possibilidade.
Viajar nos coloca diante de pessoas que não conhecem nossas histórias. Isso é curioso. Para quem encontramos pela primeira vez, não somos nossas antigas discussões, nossos fracassos profissionais, nossas decepções afetivas ou os erros que ainda carregamos com constrangimento. Somos apenas alguém chegando.
Há uma liberdade enorme nisso. Uma conversa começa sem antecedentes. Um sorriso não precisa explicar nada. Uma companhia inesperada pode simplesmente perguntar: “Vamos?”. E talvez façamos algo que há muito tempo não fazíamos. Vamos. Sem planejar demais. Sem perguntar se será produtivo. Sem calcular se aquilo contribuirá para alguma meta. Sem transformar prazer em desempenho. Apenas vamos.
Conhecemos um restaurante pequeno. Uma praça. Uma rua. Uma feira de rua. Um lugar que não estava no roteiro. Tudo novo. Sentamos ao lado de pessoas que, poucos dias antes, sequer existiam em nosso universo. Escutamos histórias diferentes das nossas. Descobrimos profissões, amores, separações, projetos, medos e sonhos que não conhecíamos. E percebemos uma coisa quase óbvia, mas frequentemente esquecida: há muitas maneiras de viver. Talvez esse seja um dos presentes mais bonitos de conhecer pessoas novas.
Elas ampliam nossas possibilidades. Não necessariamente porque permanecerão. Algumas companhias pertencem apenas a determinados trechos da estrada. E isso não diminui sua importância. Existe uma espécie de preconceito afetivo que nos faz acreditar que somente relações duradouras são relações significativas.
Nem sempre. Há pessoas que atravessam nossa vida durante anos e pouco nos modificam. Outras sentam-se conosco durante uma tarde e deixam uma pergunta que carregaremos por muito tempo. Algumas chegam apenas para nos lembrar de uma parte nossa que havíamos esquecido. A capacidade de conversar sem defesa. De rir sem medir. De aceitar um convite. De experimentar. De olhar o novo. De desejar. De sonhar. Talvez o novo tenha justamente essa função: não substituir aquilo que existe, mas mostrar que aquilo que existe não é tudo.
Isso vale também para os conflitos. Quando estamos mergulhados em tensões profissionais, temos a impressão de que aquela reunião, aquele problema, aquela disputa ou aquela decisão ocupa o centro do universo. Não ocupa. Quando estamos sofrendo por questões afetivas, podemos imaginar que determinado silêncio, determinada ausência ou determinada pessoa detém as chaves de toda a nossa capacidade de felicidade. Também não detém.
O mundo é maior do que os lugares onde sofremos. Talvez seja necessário repetir isso algumas vezes durante a vida. O mundo é maior. E sair é uma maneira bonita de confirmar. Não se trata de abandonar responsabilidades. Elas estarão esperando quando voltarmos.
Também não significa trocar pessoas sempre que uma relação se torna difícil. Afetos profundos merecem cuidado, conversa, persistência e maturidade. Mas nenhuma responsabilidade deveria nos convencer de que somos obrigados a viver permanentemente cansados. E nenhum afeto deveria exigir que reduzíssemos o tamanho do nosso mundo para demonstrar fidelidade. Amar alguém não deveria significar deixar de conhecer a vida. Trabalhar com seriedade não deveria significar renunciar ao prazer. Ser responsável não deveria significar tornar-se previsível.
Talvez crescer seja também aprender isso. Durante a viagem, alguma coisa começa a acontecer. Primeiro, discretamente. Acordamos com curiosidade. Depois, surge vontade de fazer alguma coisa. Uma caminhada. Um passeio. Uma conversa. Uma comida diferente. Uma fotografia despretensiosa. Um convite. A alegria, que parecia distante, começa a reaparecer nas pequenas decisões. E percebemos que talvez ela nunca tenha desaparecido completamente. Estava apenas sem oportunidades. Há estados de espírito que não precisam somente de descanso.
Precisam de algo novo. Precisam ser provocados. Precisam encontrar alguma coisa que ainda não conhecem. É por isso que a proatividade pode ser tão importante. Não a proatividade transformada em obrigação de fazer mais, produzir mais, conquistar mais. Essa já nos cansou bastante. Falo da coragem cotidiana de movimentar a própria existência. Escolher. Propor. Convidar. Aceitar. Experimentar. Mudar um caminho. Conhecer alguém. Começar alguma coisa. Planejar outra.
Dizer sim quando o medo aconselha apenas repetição. Dizer não quando a permanência já começou a nos diminuir. Existe vida em cada pequeno movimento desses. E, quando nos movimentamos, os sonhos também começam a se mexer. Talvez apareça vontade de fazer um curso. Conhecer outro país. Aprender alguma coisa. Retomar um projeto abandonado. Mudar aspectos do trabalho. Cuidar melhor das relações que realmente importam. Aproximar-se de algumas pessoas. Afastar-se delicadamente de outras.
Começar novamente. Não necessariamente uma vida nova. Talvez apenas uma nova maneira de viver a vida que já temos. Isso é suficiente. Porque nem toda transformação precisa destruir o que veio antes. Às vezes, basta abrir uma janela. Deixar entrar outra luz. Permitir novas companhias. Ouvir outras histórias. Experimentar outras paisagens. Sonhar sonhos que ainda não foram testados pelo medo.
Até que chega o momento de voltar. E talvez essa seja a parte mais bonita da viagem. Porque regressar não significa necessariamente retornar ao mesmo lugar. Fisicamente, sim. A mesma casa. O mesmo trabalho. As mesmas pessoas. Os mesmos compromissos. Talvez até os mesmos conflitos. Mas agora existe dentro de nós uma pequena novidade. Sabemos que há outros caminhos. Outras conversas. Outras paisagens. Outras possibilidades. Sabemos que conseguimos entrar em um lugar desconhecido e permanecer bem.
Que podemos conhecer pessoas e gostar delas. Que podemos rir novamente. Que ainda somos capazes de sentir curiosidade. Que o prazer não morreu. Que existem sonhos esperando apenas um pouco de coragem para deixarem de ser pensamentos. E isso modifica silenciosamente nossa relação com aquilo que antes parecia definitivo.
Os problemas continuam problemas. Mas deixam de ser fronteiras. As tensões profissionais continuam exigindo posicionamento. As questões afetivas ainda precisam de cuidado. Nada foi magicamente resolvido. Mas alguma coisa fundamental aconteceu: a vida voltou a ser maior do que aquilo que nos preocupa. Talvez esperança seja exatamente isso.
Não uma certeza sobre o futuro. Uma curiosidade sobre ele. A vontade de descobrir o que ainda pode acontecer. Quem ainda podemos conhecer. Onde ainda podemos chegar. Que versão de nós mesmos ainda poderá aparecer quando tivermos coragem de sair um pouco dos lugares onde todos já sabem quem somos.
Talvez seja por isso que algumas viagens permaneçam conosco muito depois da volta. Não pelas fotografias. Não pelos lugares famosos. Nem mesmo pelas lembranças mais evidentes. Permanecem porque, em algum instante, caminhando por uma rua desconhecida ao lado de novas companhias, percebemos que estávamos novamente interessados na vida.
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E isso muda tudo. Porque há dias em que não precisamos encontrar uma grande resposta. Precisamos apenas voltar a desejar alguma coisa. Uma próxima viagem. Um encontro. Um projeto. Uma conversa. Um amanhã. E talvez seja assim que a esperança retorna. Não anunciando sua chegada. Não prometendo que tudo ficará bem. Apenas colocando diante de nós uma possibilidade nova e perguntando, suavemente: — Vamos? Desta vez, talvez seja bom não pensar demais. Talvez seja bom simplesmente responder: — Vamos.
Porque há lugares no mundo que ainda não conhecemos. Há pessoas que ainda não encontramos. Há sonhos que ainda nem aprendemos a sonhar. E, sobretudo, há lugares dentro de nós que somente o novo consegue visitar.(Foto Alexander Massa/Pexels)

AFONSO ANTÔNIO MACHADO
É docente e coordenador do LEPESPE, Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte, da UNESP. Leciona na Faculdade de Psicologia UNIANCHIETA. Mestre e Doutor pela UNICAMP, livre docente em Psicologia do Esporte, pela UNESP, graduado em Psicologia, editor chefe do Brazilian Journal of Sport Psychology.
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