Tem algumas datas no calendário que a gente conhece tão bem que nem precisa pensar. Natal, Ano Novo, Dia das Mães. Agora pergunte o que acontece no dia 21 de setembro. Muita gente vai responder que é primavera, e até está certo. Mas existe outra coisa importante nessa data: é o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência. E talvez seja justamente por isso que essa data precise ser lembrada. Porque inclusão não deveria aparecer apenas no calendário.
Quando se fala em pessoa com deficiência, ainda existe muita gente que pensa primeiro naquilo que a pessoa não consegue fazer. É quase um reflexo. Viu uma bengala, já imagina que precisa sair correndo para salvar o cidadão. Viu uma cadeira de rodas e já pergunta quem empurra. Encontrou uma pessoa com deficiência no mercado, aparece alguém querendo carregar até o carrinho de compras. Eu agradeço a intenção, mas às vezes dá vontade de colocar uma plaquinha: “Calma, eu ainda estou resolvendo sozinho.”
A inclusão começa justamente quando entendemos que deficiência não significa incapacidade. Uma pessoa cega pode trabalhar, estudar, viajar, cozinhar, usar celular, praticar esportes, cuidar dos filhos e fazer uma quantidade enorme de coisas que muita gente nem imagina. Talvez faça algumas delas de uma maneira diferente, usando tecnologia, bengala, cão-guia, adaptações ou simplesmente aprendendo outros caminhos.
E aí entra uma palavra que também precisa ser conhecida: capacitismo. É quando a deficiência vira motivo para diminuir, excluir, infantilizar ou duvidar da capacidade de alguém. Às vezes ele aparece de maneira escancarada. Outras vezes vem disfarçado de proteção.
“Deixa que eu faço para você”, “você não consegue” ou “mas como você vai fazer isso sozinho?”. As perguntas podem parecer preocupação. Porém, muitas vezes carrega uma conclusão pronta.
Inclusão apregoada no dia 21 de setembro também está nas pequenas coisas. Está numa calçada acessível, numa informação que pode ser lida por um leitor de tela, numa escola preparada, num transporte que realmente possa ser utilizado por todos e, principalmente, na oportunidade de a pessoa decidir por si mesma. Não significa fingir que as diferenças não existem. Significa não transformar essas diferenças em barreiras.
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Talvez o maior problema seja que muita gente ainda confunde inclusão com favor. Não é favor colocar uma rampa onde existe uma escada. Não é favor disponibilizar informação acessível. Não é favor contratar uma pessoa com deficiência que tem qualificação para aquela função. É direito.
E talvez o 21 de setembro sirva justamente para lembrar disso. Porque uma sociedade realmente inclusiva não é aquela em que alguém diz “olha, deixaram essa pessoa participar”. É aquela em que ninguém precisa agradecer por ter recebido aquilo que sempre deveria ter sido garantido. No fim, inclusão não é abrir uma porta para alguém entrar. É construir um lugar onde essa pessoa nunca precise perguntar se pode entrar.(Foto: Eren Li/Pexels)

JOÃO VITOR FRANCO GOUVEIA
É formado em Acessibilidade Digital, graduado em Gestão de RH e com certificação ITIL 4 Foundation, atua como monitor de informática para pessoas com deficiência visual no Instituto Jundiaiense Luiz Braille. Trabalha com tecnologia, inclusão e autonomia digital, acredita no uso da tecnologia como ferramenta de transformação social e defende que a inovação só faz sentido quando promove inclusão e acesso para todos.
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