Existe uma coisa curiosa quando algumas pessoas encontram alguém com deficiência visual. Parece que o cérebro entra automaticamente no modo “situação de emergência”. A pessoa começa a falar mais alto, segura no braço, pergunta se eu consigo enxergar e, se bobear, já está procurando uma ambulância. Calma, meu amigo. Eu só estou indo comprar pão. Pensando nisso, resolvi criar um manual simples para quem não sabe muito bem como lidar com uma pessoa cega.
Primeira regra: não precisa gritar. Eu sou cego, não surdo. Se você falar normalmente, existe uma grande possibilidade de eu responder normalmente também. Gritar comigo não vai aumentar minha visão. No máximo, vai aumentar minha vontade de ir embora.
Segunda regra: se quiser ajudar, pergunte. É simples: “Você quer ajuda?”. Pronto. Não precisa agarrar meu braço como se eu estivesse fugindo de uma prisão. Se eu aceitar, normalmente vou segurar no seu braço ou no seu ombro. E aí você pode me acompanhar. Só não precisa sair correndo, porque eu tenho duas pernas e pretendo continuar com elas.
Terceira regra do meu manual: não puxe a bengala. A bengala é minha ferramenta de orientação. Ela não é uma coleira, um puxador ou um cabo de emergência. Se você pegar nela e tentar me conduzir, provavelmente vai conseguir apenas criar uma situação bastante estranha.
Quarta regra: também não precisa ter medo de falar “olha”, “viu”, “ali” ou “vamos ver”. Eu uso essas palavras o tempo inteiro. Outro dia alguém ficou todo preocupado porque disse “olha isso” para mim. Eu respondi: “Pode falar, eu não vou processar você por uso indevido do verbo olhar”. E tem a clássica: “Você reconhece minha voz?”. Essa é perigosa. Se eu conheço você, talvez reconheça. Se não conheço, vou precisar de uma pequena ajuda. E não adianta ficar esperando que eu faça uma identificação de CSI pelo barulho da respiração.
Quinta regra: se estiver me acompanhando, também vale avisar quando houver degrau, buraco, porta ou algum obstáculo. Não precisa fazer um relatório da prefeitura: “À sua frente temos uma elevação de aproximadamente quinze centímetros, localizada a dois metros e meio…” Basta dizer: “Tem um degrau aqui”. Eu agradeço. E quando for embora, avise. Não desapareça no meio da conversa. Porque eu posso continuar falando com você enquanto você já está do outro lado da rua comprando um refrigerante.
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Sexta regra do meu manual: Lidar com uma pessoa cega não exige um curso, uma prova ou um certificado. Exige bom senso. Pergunte antes de ajudar, respeite a resposta e trate a pessoa como pessoa. Porque talvez a maior barreira não esteja na falta de visão, mas na quantidade de coisas que as pessoas imaginam que uma pessoa cega não consegue fazer.
E se ainda tiver dúvida sobre como agir, faça o mais simples: pergunte. Afinal, entre tentar adivinhar o que o outro precisa e simplesmente perguntar, existe uma diferença enorme. E, convenhamos, perguntar ainda dá bem menos trabalho do que carregar um cego pela rua achando que está salvando o mundo.(Foto: Artem Podrez/Pexels)

JOÃO VITOR FRANCO GOUVEIA
É formado em Acessibilidade Digital, graduado em Gestão de RH e com certificação ITIL 4 Foundation, atua como monitor de informática para pessoas com deficiência visual no Instituto Jundiaiense Luiz Braille. Trabalha com tecnologia, inclusão e autonomia digital, acredita no uso da tecnologia como ferramenta de transformação social e defende que a inovação só faz sentido quando promove inclusão e acesso para todos.
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