Meus alunos sempre perguntaram de onde eu tiro as coisas que falo, além do conteúdo teórico e acadêmico. Sou muito exigente comigo e não gosto de improviso quando trato da formação profissional deles. Entretanto sou levado a acreditar que as vezes estou mais inspirado e mais solto, em minhas colocações, dando um certo ar de maior flexibilidade e de uma forma mais branda de apresentar um fato novo, uma teoria ou uma determinada proposta. Mas não perco a exigência nem a seriedade da situação. Não confundo seriedade com devaneios, ainda que entenda que devaneios também sejam sérios e necessários. Porém busco fazer o diferente, em todas as minhas propostas de Vida. Acredito que ser diferente seja ser especial, porque demanda uma preocupação consigo e com o outro que deve estar cansado da mesmice, tanto quanto eu, mas nem sempre se posiciona. E pago o preço por isso para aqueles que não conseguem fazer desta maneira.
Percebo que agir diferente é trazer o inusitado, trazer o novo num espaço cansado e viciado de ideias cheirando aa naftalina e estruturadas, ainda que os sistemas dinâmicos digam que tudo está em constante mudança. Não seria imitar nem debochar, mas mostrar uma outra forma de agir e pensar, que nos conduza a questões inovadoras e concretas, sem ser repetitivo nem leviano. Ah, o diferente…como se esforça esta pessoa que tenta deixar a Vida mais suave e mais completa, sem ser sempre o mesmo.
Uma grande preocupação de quem pretende ser diferente é o medo de não aguentar tanta ebulição, pois os diferentes estão sempre fervilhando, sempre agitados, sempre ativos. Um diferente parado é um diferente morto…cada um dos diferentes tenta sempre estar perto da perfeição, não para ser melhor, mas para não ser igual aos demais, não ser senso comum, não cair na mesmice.
O diferente está sendo sempre julgado pelos demais outros, de olhares comuns: as pessoas mais duras, as menos flexíveis e mais padronizadas. Estes têm a mania de se entenderem perfeitos e modelos da ordem, de forma que tentam impor suas impressões sobre o mundo acima de toda e qualquer outra posição, ainda que a outra seja mais adequada. Atuam como uma tropa de controle dos costumes, buscando padronizar o mundo em que vivem. Esses, sim, são uns chatos que infernizam as pessoas que se encantam em viver em paz consigo. Infelizmente.
Já li muito sobre os diferentes, talvez por ser um, mas a Psicologia Diferencial e a Psicologia da Multidão ainda não me oferecem suporte para tudo aquilo que vivencio nos meus dias de franca experimentação: não deixo de tentar o novo, nunca! Quer seja num trajeto que faço sempre, quer seja numa forma de explicar algo, quer seja no olhar às coisas que me circundam, enfim, não me arrisco na mesmice, porque a mesmice é burra.
É lógico que percebo quem não me entende, assim como percebo quem me olha com censura e descaso. Como não perceber? Não fico raivoso nem agrido, mas provoco para tentar uma mobilidade na pessoa que parou no tempo; tento, me envolvo, levo bordoadas, dialogo, mas mantenho distância para não me machucar (mais) nem para ser inconveniente: cada um escolhe sua trajetória, mas não me permito me mediocrizar e pago o preço disto.
Meus sensores mentais me sugerem que alguns me olham como ameaças e me percebem como separador de cães e gatos e capivaras; enquanto isso eu só estou preocupado, junto a outros diferentes, a cuidar da minha Vida, do meu jeito, na minha velocidade e da minha forma, lutando para ser feliz. Pode parecer pouco, mas para mim e para os meus parceiros diferentes isso é muito.
É assim que engulo a inveja do comum, que sorrio para todos, brinco com tudo e sou sério, na minha essência. Não demonstro vacilo nem titubeio diante dos demais, por ser suficientemente esperto para não permitir que me machuquem, mas sei bem com quem eu lido, de modo a não me vulnerabilizar para não sofrer atoa. Lembro-me de ser assim, desde pequeno, já na escola básica, quando os mais velhos ou “mais padrão” normatizavam comportamentos que não me pareciam cabíveis. Sofria. Mas não cedia.
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Tenho na memória algumas falas do meu pai que dizia que eu escolhia o mais difícil, que eu queria o mais complicado. Nunca me senti complicado, estranho ou difícil. Sentia-me diferente e é o que sou. Hoje, na velhice, analiso o quanto sou feliz, sendo aquilo que me tornei, sem ter que dar satisfações nem me render ao padrão exposto como protótipo. Pleno em minha liberdade e em minha vontade, com inteligência e segurança, de modo a não permitir que eu me fira, que eu me sabote, que eu me puna. Como os diferentes devem ser, acredito.
Entendo que os diferentes superam os risos e as gargalhadas dos outros, por não se sentirem ridículos. Superam os escárnios e a gozação por não se sentirem motivos de tanto. Superam o medo e a vergonha por não se sentirem só. Superam a solidão porque ela é criativa e acolhedora e é disso que todo diferente precisa. O diferente…ah, o diferente é um ser transformado e transformador. O diferente é desafiador e desafiante. Sempre. Até o fim da Vida, eu acredito.(Foto: João Jesus/Pexels)

AFONSO ANTÔNIO MACHADO
É docente e coordenador do LEPESPE, Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte, da UNESP. Leciona na Faculdade de Psicologia UNIANCHIETA. Mestre e Doutor pela UNICAMP, livre docente em Psicologia do Esporte, pela UNESP, graduado em Psicologia, editor chefe do Brazilian Journal of Sport Psychology.
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