Durante anos, a segurança digital brasileira apostou em uma equação simples: seu rosto e sua voz são únicos, logo servem como prova de identidade. Essa equação quebrou. A popularização da inteligência artificial(IA) generativa de voz e vídeo tirou a fraude sintética do campo da ficção científica e a colocou no centro operacional do crime financeiro brasileiro.
Casos recentes ilustram a velocidade dessa mudança. Em 2025, a Polícia Civil do Amazonas investigou uma quadrilha que usava deepfakes de voz e imagem para aplicar golpes financeiros, replicando o padrão que já havia sido registrado em outros estados do país. Em escala federal, a Operação Face Off, da Polícia Federal, revelou um esquema de fraude em massa contra o portal Gov.br: criminosos simulavam rostos de usuários, inclusive de pessoas já falecidas — e conseguiam vencer sistemas de prova de vida (liveness detection), a camada de segurança criada justamente para confirmar que há uma pessoa real diante da câmera.
O problema tem raiz técnica clara. Segundo testes da Agência da União Europeia para a Cibersegurança (ENISA) citados pela BIBlue, empresa especializada em detecção de fraude, a taxa de falsa aceitação de sistemas de biometria facial, normalmente de 0,1% em condições regulares, pode saltar para até 18% diante de deepfakes de quinta geração. Já a clonagem de voz não exige mais do que alguns segundos de áudio público, extraído de uma rede social ou de uma ligação gravada, para gerar um clone convincente o suficiente para enganar até atendentes experientes, como relatou o blog da Neotel Segurança Digital.
O Brasil não é uma vítima incidental desse movimento: é o principal palco dele. O país é referência mundial em bancarização digital, muito em razão do Pix. Segundo o Banco Central, o sistema registrou mais de 62 bilhões de transações em 2024, crescimento de quase 48% sobre o ano anterior, movimentando mais de R$ 26 trilhões, volume superior à soma de cartões, boletos, TED e DOC. Essa mesma onipresença tornou o Pix o vetor preferencial de fraude no país. Dados da Febraban, divulgados no início de 2025, mostram que os golpes bancários causaram prejuízo de R$ 10,1 bilhões em 2024, alta de 17% em relação a 2023, dos quais R$ 2,7 bilhões vieram especificamente de fraudes envolvendo Pix, um salto de 43% em dois anos. Um levantamento mais recente da própria entidade, referente ao período entre julho de 2024 e junho de 2025, elevou a métrica: mais de 24 milhões de brasileiros foram vítimas de golpes envolvendo Pix ou boletos, com prejuízo estimado em R$ 29 bilhões.
A reportagem da Times Brasil, em parceria com a CNBC, publicou um dado que resume o novo cenário: fraudes com vídeo falso (deepfake) já respondem por 23,3% dos casos que tentam burlar biometria facial de aplicativos financeiros, com crescimento de 800% ao mês em determinados períodos, impulsionado pela queda no custo de produção desses vídeos via IA generativa. E um levantamento do advogado especialista em fraudes bancárias digitais João Coelho aponta que os golpes de Pix por deepfake cresceram 148% em 2025, boa parte deles no formato do “falso sequestro”: a IA clona a voz de um familiar a partir de segundos de áudio, simula uma emergência e induz a vítima a transferir dinheiro voluntariamente, o que muda inclusive a estratégia jurídica de responsabilização dos bancos.
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O setor não está parado. A Febraban informa que as instituições financeiras investiram R$ 47 bilhões em tecnologia em 2025, dos quais R$ 4,7 bilhões destinados exclusivamente a prevenção de fraude e segurança cibernética. O Banco Central, por sua vez, já implementou limites de valor para transações em dispositivos não cadastrados e exige que instituições monitorem padrões atípicos de comportamento, não apenas a validação estática de rosto ou voz.
É esse o ponto central: a autenticação baseada em “algo que você é” — seu rosto, sua voz — deixou de bastar sozinha. O mercado está sendo forçado a migrar, da noite para o dia, para uma segurança contextual e comportamental, que observa como a pessoa se movimenta, digita e transaciona, não apenas se ela “parece” quem diz ser. O Pix provou que o Brasil sabe democratizar o acesso ao dinheiro em velocidade recorde. O desafio agora é provar que consegue democratizar a confiança na mesma velocidade em que a inteligência artificial aprendeu a fabricá-la.(Foto: Hadi Slash/Pexels)

ARTUR MARQUES JR
É cientista de dados e especialista em IA aplicada, com sólida atuação em educação digital e inovação. Coordena a pós-graduação digital na Cruzeiro do Sul Educacional e é PhD em Ensino de Matemática, Mestre em Física Computacional e Astrofísica. Atua como palestrante, mentor, cofundador do Grape Valley, é VP Fiscal do Hospital do GRENDACC e já foi VP da DAMA Brasil.
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