INOS IMORTAL

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O pintor italiano Inos Corradin – que escolheu morar em Jundiaí na década de 1950 – morreu no dia 17 de setembro do ano passado. O Jundiaí Agora convidou Sandra Carnio, que trabalhou com o artista por mais de três décadas, a escrever sobre o gênio criativo de Inos. Confira:

“Trabalhei com Inos Corradin por 35 anos. Meu trabalho com ele consistia em assessoramento em várias frentes, junto às galerias, clientes, escolas, imprensa e produtores da área das artes visuais.  Participei de grandes eventos, principalmente em São Paulo. Tive o privilégio de conhecer a fina nata das artes em todas as esferas, bem como figuras importantes que adquiriram suas obras. 

Inos era um pintor, não gostava de ser chamado de artista plástico e isso diz muito sobre sua essência. Não era dado a sofisticações e a simplicidade era um traço marcante no seu comportamento.  Para ele, o termo “artista plástico” tinha um peso acadêmico, intelectual e, por vezes, elitista. Já “pintor” remetia ao trabalho diário, à conexão visceral com as tintas, os pincéis e a matéria.

Inos nasceu na Itália (em Vogogna), mas adotou o Brasil — mais especificamente a cidade de Jundiaí — como seu lar e cenário criativo desde 1950.

Minha ligação com ele teve início na Prefeitura de Jundiaí, mais precisamente na Coordenadoria de Cultura e Turismo, assessorando a Comissão de Artes Plásticas na primeira gestão do Prefeito André Benassi – 1983/1988. A primeira formação da Cultura, da qual tive o privilégio de fazer parte, teve como titular a professora Cristina Castilho, que me confiou a tarefa de assessorar a Comissão presidida pela saudosa Fernanda Milani, professora, pintora, gravadora e ceramista, que muito acrescentou no meu aprendizado nessa área. O trabalho nessa Comissão derivou numa relação muito próxima com o Inos, iniciando um convívio que se consolidou, permanecendo frutífero ao longo de anos. Através do Inos e suas amizades com artistas de renome internacional, o Projeto da Coordenadoria de Cultura “Jundiaí Convida” trouxe para o Solar do Barão exposições que ficaram para a história.

Inos era muito querido entre seus pares. Durante anos sua casa foi apelidada de “Inolândia”, onde os mais renomados artistas e críticos de arte vinham jantar. Detalhe: era um mestre da gastronomia italiana, um verdadeiro virtuose na cozinha. Seus jantares eram lendários e se tornaram um ponto de encontro obrigatório para a elite cultural da época — reunindo artistas plásticos, escritores, poetas, jornalistas, intelectuais e críticos de arte que passavam horas debatendo cultura enquanto saboreavam os pratos que o próprio pintor preparava com maestria.

Inos era um homem simples, desprovido de vaidades e um leitor contumaz. Conversar com ele era sempre um momento de grande aprendizado. Era culto e desde muito jovem, ainda na Itália, leu grande parte da literatura russa: Dostoiévski, Tolstói… Quando chegou ao Brasil, com 20 anos de idade, aprendeu português rapidamente. Dominava a gramática da língua portuguesa, produzindo textos de muita qualidade, inclusive foi autor de várias crônicas publicadas em jornais e revistas.  Uma vez, confidenciou-me que se atreveu a ler Guimarães Rosa — o que, para um estrangeiro recém-chegado ao Brasil, é uma verdadeira façanha. Inos amava a cultura brasileira, o povo e as tradições.

​A música, então, era sua fiel companheira. Seu ateliê era recheado de LPs, aos quais mais tarde se juntaram as fitas cassete e outros formatos. Ele ouvia clássicos, música brasileira e muito, muito jazz. Logo que chegou às terras brasilis, apaixonou-se pela canção Índia. Amava também Serra da Boa Esperança. Quando completou 80 anos de pintura, foi homenageado com um show capitaneado pela cantora Clarina Fasanaro (hoje Secretária de Cultura), que interpretou as músicas de sua preferência.

​Não posso falar do Inos sem mencionar sua importância na minha vida. Os domingos eram especiais: íamos no Mercado da Vila Arens junto com o mestre Araken Martinho e o professor e escultor Cerezer. Eram momentos de muita descontração e bate papo animado com os amigos.

Viajei com ele para a Europa em exposições na Itália e Suiça, ao lado da saudosa Carla Surian,  marchand que representava Inos na Europa e que fez a curadoria de uma exposição permanente no navio italiano Costa Atlântica, um cruzeiro de luxo. O tom jocoso, poético e as cores lúdicas de suas composições, com gravuras decorando as cabines econômicas e os óleos nas cabines luxo, propiciaram uma conversa perfeita no ambiente do navio, trazendo marinhas vibrantes dialogando com as cores e a brisa do mar.

O fato de suas obras terem sido selecionadas para decorar o navio italiano Costa Atlântica representa uma bela ponte de volta às suas origens, unindo o modernismo de alma brasileira e nordestina, fortemente influenciado pelo período que passou na Bahia, convivendo com mestres da cultura brasileira: Carybè, Jorge Amado, Pancetti, Dorival Caymmi e Mário Cravo Junior,  dentre outros.

Foram muitos trabalhos e situações emblemáticas que vivenciamos juntos. Apesar de ser um cara brincalhão, ele era bastante tímido. Como eu trabalhava na Prefeitura, costumava levá-lo em visitas ao gabinete dos prefeitos, onde sempre foi bem recebido e reverenciado por todos.

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​Com o Prefeito Walmor, de quem era vizinho e amigo, ele aprontou uma das suas brincadeiras. Inos levou algumas latas de cerveja em um saco plástico e pediu para a copeira do Paço guardá-las na geladeira. Após a visita oficial, o Prefeito nos convidou para tomar um café na copa. O Inos, então, pediu para a funcionária trazer as cervejas.

​O Walmor ficou uma fera e esbravejou:

— Ô italiano, aqui não tem cerveja não! Aqui é um órgão institucional…

​A copeira entregou o saco plástico para o Inos que, com sua habitual irreverência, pegou a cerveja e disse:

— Walmor, e o que é isso aqui então?

​A gargalhada foi geral.

Inos partiu, mas seu legado imensurável permanecerá eterno”.

SANDRA CARNIO

Foi funcionária pública, assessorou o pintor Inos Corradin e atuou em produção cultural de eventos variados. Atualmente presta assessoria na área cultural.

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