O julgamento é visível. A DEFICIÊNCIA, nem sempre.

julgamento

No último domingo(25), enquanto muita gente saía de casa para exercer seu direito ao voto, uma situação em Jundiaí mostrou como algumas pessoas têm mais pressa para fazer o julgamento alheio do que para entender o que realmente está acontecendo. Um vídeo gravado perto de uma escola eleitoral mostrou uma jovem retirando um cavalete de uma vaga reservada para pessoas com deficiência. A cena virou motivo de deboche político, e a roupa vermelha da moça parece ter sido suficiente para que algumas pessoas tirassem suas próprias conclusões sobre ela. Para quem gravou e compartilhou o vídeo, a aparência já parecia contar toda a história.

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Só esqueceram de um pequeno detalhe: ninguém foi atrás de saber quem estava dirigindo o carro. O motorista era o pai da jovem, um homem com problemas nos dois joelhos e uma credencial válida para utilizar aquela vaga. Pois é. Bastaram alguns segundos de gravação, uma legenda e muita certeza para transformar uma situação mal compreendida em assunto para milhares de pessoas. A internet tem dessas coisas: para investigar os fatos, faltam alguns minutos; para o julgamento de alguém bastam três segundos e uma conexão boa.

Mas, para mim, o que mais chama a atenção nessa história vai muito além da política. É o capacitismo, que aparece justamente quando a deficiência não está estampada no rosto e não corresponde à imagem que as pessoas fazem de alguém com deficiência.

Quem é cego, por exemplo, sabe que nem sempre os outros entendem como é possível realizar determinadas atividades sem enxergar. Com outras deficiências acontece a mesma coisa. Existem pessoas que caminham, dirigem e trabalham, mas convivem com limitações que nem sempre são percebidas por quem olha de fora. E ninguém deveria precisar apresentar um laudo médico em praça pública para provar que merece respeito.

Tem ainda a questão do cavalete. Para muita gente, tirar um objeto do caminho parece uma coisa simples, sem importância. Mas, para uma pessoa com mobilidade reduzida, sair do carro, retirar o obstáculo e voltar pode representar uma dificuldade real. Aquilo que parece um detalhe para uns pode ser mais uma barreira para outros.

O capacitismo também mora nessas situações: na piada, na desconfiança e na mania de achar que conhecemos a realidade de alguém só porque olhamos para ela por alguns segundos.

E tem outra coisa que me incomoda. Depois que a publicação foi apagada, o vídeo continuou circulando. Afinal, na internet, o botão de excluir não vem acompanhado de uma máquina do tempo. Uma postagem pode ser apagada, mas as cópias continuam, os comentários permanecem e o constrangimento não desaparece tão facilmente.

Enquanto isso, a pessoa exposta ainda pode ter medo de se identificar e sofrer represálias. É triste pensar que quem passa por uma situação dessas precisa se preocupar até com a própria segurança, enquanto o julgamento alheio ganha milhares de visualizações.

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Como pessoa com deficiência visual, não espero que todos conheçam as dificuldades que enfrentamos. Mas espero, no mínimo, que exista disposição para ouvir antes de condenar. Não precisamos de pena, nem de tratamento especial em todas as situações. Precisamos de respeito e de pessoas dispostas a entender que nem tudo é exatamente como parece.

No fim, talvez o maior problema dessa história não esteja nos joelhos de ninguém, mas na dificuldade de algumas pessoas em exercitar o bom senso. Porque a roupa pode até chamar a atenção, um vídeo pode viralizar e uma legenda pode convencer muita gente. Mas nada disso transforma uma suposição e um julgamento sem bom senso em verdade. E, antes de apontar o dedo para alguém, vale lembrar: a deficiência nem sempre aparece na foto, mas a falta de empatia costuma aparecer muito bem.

JOÃO VITOR FRANCO GOUVEIA

É formado em Acessibilidade Digital, graduado em Gestão de RH e com certificação ITIL 4 Foundation, atua como monitor de informática para pessoas com deficiência visual no Instituto Jundiaiense Luiz Braille. Trabalha com tecnologia, inclusão e autonomia digital, acredita no uso da tecnologia como ferramenta de transformação social e defende que a inovação só faz sentido quando promove inclusão e acesso para todos.

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