MENINAS, príncipes, lobos, fadas e bruxas

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Senta aqui, pega um café e vem conversar comigo. A primeira mentira que contamos às meninas não é sobre o mundo. É sobre as pessoas, mais especificamente sobre os homens. Porque, desde cedo, ensinamos que eles se dividem entre príncipes e vilões, entre aqueles que salvam e aqueles que ameaçam, enquanto elas aprendem, cedo demais, que também serão classificadas mas não pelo que são e sim pelo quanto correspondem ao que se espera delas. Com isso, entregamos às meninas uma lente quebrada para interpretar a realidade; uma lente que parece didática, que organiza o mundo e facilita a compreensão, mas que cobra um preço alto, porque elimina a ambiguidade e é justamente na ambiguidade que o perigo costuma existir.

Nos contos de fadas, isso se apresenta com uma nitidez quase confortável. Em Chapeuzinho Vermelho, por exemplo, o desvio de caminho é tratado como erro, como desobediência, como falha de julgamento. E se a gente deslocar essa leitura? E se o desvio não for ingenuidade, mas exercício de autonomia? E se escolher o próprio caminho, ainda que fora do roteiro esperado, não for o problema, mas sim o contexto em que essa escolha acontece? Porque o lobo não deixa de ser lobo porque a menina decidiu caminhar por outro trajeto. O risco não nasce da liberdade dela, o risco já estava posto. O que muda é apenas o quanto estamos dispostos a responsabilizar a escolha feminina por uma violência que nunca foi produzida por ela.

E é aqui que o maniqueísmo começa a operar de forma silenciosa e perigosa: ele desloca o foco, ensina que o erro está na decisão das meninas, e não na presença do lobo; ensina que há caminhos seguros e caminhos perigosos quando, na verdade, o perigo não está no trajeto, está em quem se sente autorizado a invadi-lo. E, enquanto isso, o príncipe segue intacto, sempre fora de suspeita, sempre posicionado como solução, nunca como possibilidade de risco, porque o maniqueísmo não permite que ele ocupe dois lugares ao mesmo tempo; ele não pode ser ambíguo, não pode ser complexo, precisa ser confiável, ainda que a realidade insista em mostrar o contrário.

E, se na história da Chapeuzinho aprendemos a desconfiar do caminho, em histórias como Cinderela aprendemos a não desconfiar de quem insiste em nos encontrar. E talvez aqui esteja uma das distorções mais perigosas que reproduzimos sem perceber: a ideia de que a insistência masculina, quando travestida de romantismo, é prova de amor. O príncipe que atravessa reinos, que procura incessantemente por uma mulher que ele mal conhece, que insiste apesar do silêncio, da ausência, da negativa, ele é celebrado, mas fora da ficção, isso tem outro nome. Isso é perseguição. E não é metáfora, não é exagero, não é construção teórica. É ocorrência: é a mulher que foi morta a facadas por um homem com quem nunca havia trocado uma palavra, mas que jurava ser desprezado por ela; é a mulher que passou a ser perseguida diariamente por um homem que a viu trabalhando em um balcão e decidiu, sozinho, que aquilo era amor; é o homem que afirmou, sem qualquer constrangimento, que sabia que se casaria com uma mulher porque havia sonhado com isso, mesmo sem nunca ter existido qualquer tipo de vínculo entre eles.

Isso não nasce no ato extremo, começa muito antes. Começa quando a insistência é romantizada, quando a recusa é relativizada, quando o desconforto da mulher é tratado como dúvida, e não como limite. E talvez a pergunta que realmente importa não seja direcionada às mulheres, como tantas vezes tentam fazer parecer, mas a todos nós: em que momento a insistência masculina deixou de ser interpretada como invasão e passou a ser aceita como demonstração legítima de afeto? E, mais, quantas vezes ainda precisamos assistir a essas histórias se repetirem para reconhecer que não se trata de exceção, mas de padrão?

E sim, existe lei, existe tipificação, existe previsão, existe nome jurídico para isso tudo. A perseguição deixou de ser invisível no papel; o que antes era tratado como exagero, incômodo ou coisa de quem não sabe lidar com rejeição hoje pode ser reconhecido como crime. A legislação avançou, o discurso jurídico mudou, a violência psicológica passou a ter nome, o controle, a vigilância, a insistência passaram a caber dentro de enquadramentos legais, mas entre existir e funcionar, existe um abismo. A lei não atua na cultura que forma esse comportamento, não impede que homens sejam ensinados, desde cedo, a confundir desejo com direito, não alcança o momento em que a recusa é ignorada pela primeira vez. Exatamente onde tudo começa.

E quando a violência começa, ela quase nunca chega ao sistema com o nome que tem. Ela chega como dúvida, chega como “acho que estou exagerando”, chega como “ele só quer conversar”, chega como uma mulher tentando traduzir incômodo em algo que seja considerado grave o suficiente para ser ouvido e, muitas vezes, não é. Porque ainda se espera prova onde há processo, ainda se espera ruptura onde há escalada, ainda se espera o fato consumado para reconhecer o risco anunciado. E, quando finalmente chega, quando vira ocorrência, medida, procedimento, o sistema entra tentando organizar algo que já está em movimento há muito tempo.

A lei nomeia, mas não escuta sozinha. A lei prevê, mas depende de quem interpreta. A lei existe, mas não opera no vazio. Ela atravessa crenças, julgamentos, filtros morais e institucionais que ainda carregam exatamente o mesmo maniqueísmo que formou o problema. Porque, se o agressor ainda é visto como apaixonado demais, inconformado, intenso, o enquadramento legal disputa espaço com a narrativa que o suaviza, enquanto mulheres seguem sendo classificadas entre fadas e bruxas, dependendo do quanto correspondem ou não ao comportamento esperado. E, se a vítima ainda precisa provar que disse não do jeito certo, no tom certo, na quantidade certa, então o problema nunca foi ausência de lei. Foi e continua sendo a forma como a sociedade escolhe reconhecer, ou não, a violência antes que ela se torne irreversível.

A legislação avançou, mas a leitura social ainda atrasa. E, enquanto esse descompasso existir, a lei vai continuar chegando depois, correndo atrás de uma violência que já foi anunciada, já foi sentida, já foi ignorada e até mesmo já foi consumada.

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E talvez o ponto mais perverso de tudo isso seja que o maniqueísmo não é apenas uma forma simplista de ver o mundo, ele é um mecanismo eficiente de proteção da violência, porque, ao insistir em dividir homens entre bons e maus, ele impede que se reconheça o perigo exatamente onde ele costuma nascer: na zona confortável dos bem-intencionados, dos apaixonados, dos normais. E, enquanto o risco só é admitido quando o agressor já ocupa o lugar do monstro, tudo o que acontece antes disso segue sendo relativizado, minimizado, explicado. E é nesse intervalo, entre o que ainda parece inofensivo e o que já se tornou inegável, que a violência cresce, se estrutura e, muitas vezes, se consuma.

Pega mais um café. Relaxa… não é nada que você já não tenha fingido não ver.(Foto: cena do filme ‘Cinderela’, de 2015)

ANDRÉIA MELO

É guarda municipal há 14 anos, especialista em atendimento humanizado às mulheres em situação de violência. Idealizadora e presidente da Casa de Alices – Centro de Atendimento e Acolhimento à Mulher. Atuou como vice-presidente do CAIS Jundiaí. Idealizadora do Programa Guardiã Maria da Penha onde atuou como coordenadora por 2 anos, instrutora na formação de profissionais da segurança pública em violência de gênero e direitos humanos, unindo experiência prática e reflexão jurídica no enfrentamento das desigualdades estruturais. E-mail: andreiamelo.casadealices@gmail.com. Telefone: 11 975559986. Conheça a Casa de Alices clicando aqui.

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