Ontem(14) completou um ano que o jornalista Emerson Moura Leite se foi. O Mimi foi vítima de um acidente na rodovia João Cereser, em Jundiaí. Depois de cumprir expediente na Câmara, onde era assessor de imprensa do vereador Cristiano Lopes, voltava para casa. Ele teria um compromisso com a esposa, Isabela Regina, e mandou mensagem avisando que chegaria em 10 minutos. Lá se foram 366 dias e Emerson não voltou. O casal tinha uma filha, Liz, na época com dois anos. Naquela noite chovia e a motocicleta do jornalista foi atingida por um caminhão. Ele tinha 48 anos. Um mês depois da morte, a quadra do Centro Esportivo Léo Nogueira, no bairro do Medeiros, foi reinaugurada e recebeu o nome “Jornalista Emerson Moura Leite”. Uma bonita homenagem. Só que Mimi, por tudo que foi e fez, merecia muito mais.

Emerson era uma destas pessoas que Deus fez e jogou a forma fora. Era gentil, perspicaz, inteligente, generoso, engraçado e competentíssimo. Era um jornalista raiz, investigativo e que não gostava de ser fotografado. E cá comigo, tenho minhas dúvidas se aprovaria este texto. Ele era do tipo que não gostava de ser notícia. O negócio dele era conquistar as manchetes todos os dias. E, em 90% das vezes, conseguia.
Foi a colega Hanaí Costa quem me avisou que Emerson tinha morrido. Ela mal conseguia falar. Por um instante tentei me enganar. Queria acreditar que era só uma brincadeira tosca. Torci para que ela dissesse que estava me dando um trote bem elaborado, que Mimi tinha armado essa presepada por um motivo qualquer. Aquele segundo passou rápido com as lágrimas compulsivas que teimavam em jorrar no meu telefone. Veio o velório na igreja do Eloy Chaves, o reencontro com colegas que não via há anos ou com aqueles que só falo por Whatsapp. E veio também a sensação de que aquilo tudo não estava certo, que o roteiro da vida do Mimi fora rasgado por uma falha da Matrix. Até hoje, 366 dias depois, quando tenho uma informação interessante ou recebo um meme engraçado, ainda me pego pensando em compartilhar com o colega…
Emerson era filho de Lazinho Leite, que durante anos foi setorista do futebol amador do JC. Começou a trabalhar na redação deste jornal no início da década de 1990. Era office-boy. No velório do filho, Lazinho já fragilizado pela idade e pela doença, observava o caixão com o olhar triste. Sentado, acompanhando o vai e vem das pessoas que amavam Mimi, parecia que Lazinho queria dizer que era ele quem deveria ter partido por tudo que já viveu. No quesito ‘pais’, eu e Emerson tínhamos histórias parecidas. Passamos boa parte da vida afastados dos nossos. O tempo e a pequena Liz reaproximaram os dois, confidenciou ele para mim. Eu não tive essa sorte.

Ainda na fase office-boy, Émerson era atormentado na redação do Jornal da Cidade, sendo alvo preferencial de todo tipo de brincadeira. Era uma época que ninguém tinha ouvido falar em ‘bullying’. Politicamente incorreto era vereador ou prefeito saracoteando com dinheiro público. Jovens, não tínhamos a mínima noção do perigo. Não lembro o que Emerson tinha aprontado. Mas, eu e o repórter-fotográfico Mário Vassalo decidimos que ele precisava de um corretivo. Pegamos o Mimi pelas pernas e o dependuramos do lado de fora da janela da redação, numa altura de cerca de cinco metros. Ele era mirradinho, o que facilitou o castigo. O então office-boy ficou ali, de cabeça para baixo por vários minutos, rindo sem parar. Também no JC, criança e sem noção, sabe-se lá o motivo, viu uma bunda e achou que seria uma boa ideia dar uma ‘sardinha’ nela. Para quem não sabe, ‘sardinha’ é o ato de juntar dois dedos e atingir com força o alvo. A pancada gerava um estalo. Só que a bunda era de uma repórter que, claro, não gostou nada da brincadeira. O boyzinho tomou um gancho e pouco tempo depois pediu demissão. Voltou como repórter.
Corintiano, Mimi começou a trabalhar como jornalista bem antes de se formar, o que só aconteceria em 2008, pela Faccamp. Naquela altura, já tinha feito reportagens nas áreas de Esportes, Política, Gerais e Polícia, além de atuar nas rádios. Trabalhou como assessor do então deputado estadual Pedro Bigardi, em 2010. Três anos depois, com Bigardi sendo eleito prefeito, assumiu a Diretoria de Comunicação da Prefeitura de Jundiaí.

Já em outro jornal, passei a coordenar as redes sociais, enfrentando os imbecis que não entendem que notícia não é feita para agradar e sim informar. Tem gente cretina que não quer ver determinado assunto publicado simplesmente por discordar dele. No Facebook, eu estava batendo boca com um destes idiotas até que Emerson – então já repórter – comprou a briga e entrou na discussão on-line. Ele tentou dialogar com o tapado. Até que perdeu a paciência e postou a frase ‘senhor, com todo respeito, vá palitar o c…’. Nunca tinha ouvido essa expressão. Gostei e a incorporei ao meu repertório. Quanto ao chato de galocha, ele parou de aporrinhar.
Foi nesta época que Emerson protagonizou um episódio que entrou para a história do jornalismo local. Ele já tinha feito matérias memoráveis, como quando se disfarçou de morador de rua para reportar as agruras pelas quais essas pessoas passam diariamente. Foi então que virou repórter policial. Ele ficava com o carro do jornal e foi acionado pela redação para ir até o São Camilo ou Tarumã. A pauta não tinha nada a ver com polícia, mas como estava com a ‘viatura’, Mimi foi cumpri-la com o mesmo profissionalismo de sempre. Os moradores reclamavam da falta de energia elétrica no bairro. Reza a lenda que neste meio tempo, outras pessoas passaram a ligar para a redação fazendo a mesma queixa. Numa delas, um colega – cansado de atender tantos telefonemas pelo mesmo motivo – respondeu:
– O jornal só vai publicar o problema de vocês. Nós não vamos consertar nada. Calma, o jornalista já vai chegar…
Os telefonemas continuaram e o mesmo jornalista, de saco cheio, respondeu de forma ríspida a um deles:
– Por que vocês não sobem no poste e resolvem o problema?
Mimi chegou ao local e foi surpreendido por uma multidão enfurecida que queria fazê-lo subir no poste, como sugerido no telefonema. Com jogo de cintura, Emerson reverteu a situação e trouxe as informações que seriam publicadas na edição do dia seguinte. É bem verdade que ele estava pálido, assustado. Olhando para o jornalista que havia falado o que não devia, Mimi ponderou:
– Não faz mais isso não. Poderia ter dado merda…
Para ser repórter policial é preciso ter coragem. Um dia você é ameaçado por bandidos. No outro, pelos ‘tiras’. Lembro que houve uma ocorrência na qual um sujeito armado dominou um ônibus. A PM foi chamada, o oficial resolveu o problema e virou manchete. Dias depois, Emerson descobriu que o mesmo oficial estava envolvido num caso de tortura. O jornalista recebeu ameaças e, claro, teve medo. Mesmo assim fez a cobertura ouvindo todos os lados. Foi fundo na apuração. Não deixou nenhum detalhe escapar, como era de praxe. O policial foi punido. Passou de herói a vilão em poucos dias…
Neste mesmo período, Emerson mostrou que também era impetuoso, mesmo que isso pudesse custar o emprego. Era dia de pagamento e depois de abastecer a motocicleta percebeu que não tinha dinheiro na conta. Não sei como ele resolveu a situação com o frentista. Testemunhei a chegada dele na redação. Não falou nada. Estava nitidamente irritado. Na verdade, estava p. da vida. Ligou o computador e mandou um e-mail para todos, inclusive os donos do jornal. Naquela época, o pagamento não costumava atrasar, coisa que se tornou rotineira e banalizada com o correr dos anos. É óbvio que os devedores ficaram possuídos com a ousadia do jornalista. Emerson foi demitido. E é óbvio também que ele procurou a Justiça do Trabalho. Acabaram arrumando a desculpa de que era melhor recontratá-lo por ser um jornalista incrível. Mentira. Emerson era sim um talento incontestável. Mas, a verdade é que ficaram com medo do tamanho da conta que viria pela frente já que o repórter acumulava funções, além de trabalhar durante o dia, noite, madrugada e finais de semana. Emerson voltou e ficou tudo elas por elas. O repórter policial lavou nossas almas: chamou os patrões de caloteiros com letras maiúsculas para todo mundo ver. Falou aquilo que todos nós tínhamos vontade, mas faltava coragem.

Mais tarde, quando fui avisado que deixaria a chefia de reportagem para assumir o jornalismo de uma rádio, bateu aquela insegurança que todas as mudanças trazem. Eu tinha sido escolhido pelo dono da emissora para turbinar o jornalismo de uma emissora que depois de anos nas mãos da Igreja Universal, estava em frangalhos. Recebi a notícia e como não me foi dado o direito de escolha, nervoso peguei o maço de cigarros e fui para o fumódromo, que ficava no estacionamento da empresa. Eu não tinha experiência em rádio. Emerson deve ter percebido a minha aflição, se aproximou e perguntou o que estava acontecendo. Aflito, contei tudo e perguntei:
– Por que eu, Emerson? Eu nunca trabalhei em rádio…
O colega tinha um hábito do qual – talvez – nunca se dera conta. Quando a conversa era séria, se aproximava(tipo conversa ao pé do ouvido), engrossava ainda mais a voz e passava a falar baixinho. Deste jeito, Mimi respondeu:
– Porque você é bom.
Trabalhei como coordenador de jornalismo da rádio por mais de 10 anos.
Contudo, Emerson não elogiava por elogiar. Anos depois, quando o dono da rádio morreu, fui o escolhido para substituí-lo no programa que ele comandava todas as manhas. Fiquei injuriado. Detestava(e até hoje detesto) microfones ou câmeras de TV. Conversando com Mimi, falei sobre os meus receios de falar ao vivo. Afinal, ele era um profissional de rádio e ostentava um vozeirão. Ninguém melhor do que ele para me entender.
– Por que você não quer fazer o programa?, perguntou ele.
– Minha voz é horrível, respondi.
– Ah, isso é verdade! Você tem voz de taquara rachada, disse ele gargalhando.
Não teve jeito. Participei do programa por vários meses. E cada vez que sentava em frente ao microfone lembrava daquela conversa e imaginava Mimi ouvindo a rádio e se divertindo com meu timbre desafinado.
Essa conversa aconteceu quando Emerson já trabalhava como assessor na Câmara. Foi um tempo em que tínhamos mais contato pelo Whatsapp. Trocávamos xingamentos carinhosos, zoações futebolísticas e piadas escatológicas. E havia tempo também para análises de todos os tipos, principalmente sobre o jornalismo atual. Numa delas, refletimos sobre a pressa que o on-line submete os profissionais.
– Eu trabalhei num jornal virtual e entendi que não me adaptaria. Esse negócio de chegar da rua e escrever rapidamente não é para mim. Eu gosto de apurar, de escrever com calma. Na Câmara posso fazer bem feito…
Era Emerson Moura Leite sendo Emerson Moura Leite. Fiel aos princípios do bom jornalismo o tempo todo. Sem pressa para publicar. Mas quando a matéria estava pronta não se achava uma vírgula errada. (Texto: Marco Antônio Sapia)
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