Há um território que poucos visitam. Chama-se silêncio. Não o silêncio da ausência de som, mas aquele que nasce quando o mundo pede respostas rápidas e a alma ainda está tentando entender as perguntas. É nesse espaço — quase sempre invisível — que moram nossas dores mais profundas e nossas alegrias mais verdadeiras.
Cada um carrega um silêncio próprio. Alguns o usam como refúgio. Outros, como armadura. Há quem o viva como prisão. O fato é que ninguém atravessa a vida ileso. Todos sofremos. Por causas diferentes, intensidades distintas, histórias singulares. Ainda assim, insistimos em comparar dores, como se o sofrimento obedecesse a uma lógica objetiva, mensurável, universal. Como se fosse possível medir o peso do que só quem sente consegue sustentar.
A dor do outro quase sempre nos parece exagerada. A nossa, invariavelmente legítima. Talvez porque a dor só seja plenamente compreendida por quem a habita. Vista de fora, ela perde contorno, profundidade, densidade. Vista de dentro, ocupa tudo. Não sobra espaço para relativizações.
É curioso como aprendemos cedo a silenciar certas dores. Desde pequenos, ouvimos que “não é nada”, que “vai passar”, que “há coisas piores”. E assim vamos nos tornando especialistas em minimizar o que sentimos, enquanto esperamos que o outro compreenda aquilo que nem nós mesmos conseguimos nomear.
O silêncio, então, vira companhia constante.
Não porque não haja o que dizer, mas porque falta quem consiga escutar sem medir, sem julgar, sem hierarquizar. Falta quem compreenda que há dores que não pedem solução — pedem presença. Mas o silêncio não abriga apenas dor.
Ele também guarda alegrias. A alegria de ser quem se é, apesar de tudo. Apesar das expectativas, das cobranças, dos rótulos. Há uma alegria silenciosa em reconhecer-se inteiro, mesmo com falhas, mesmo com contradições. Uma alegria discreta, que não precisa de aplauso, mas que sustenta. Ser quem se é dói. Mas também alegra.
Dói porque ser fiel a si mesmo exige renúncias. Exige dizer não quando se espera um sim. Exige sustentar escolhas que nem sempre são compreendidas. Exige conviver com a solidão que acompanha quem decide não se trair. Mas alegra porque há paz em não precisar fingir o tempo todo. Há alívio em deixar cair personagens. Há uma alegria madura em reconhecer limites e, ainda assim, seguir.
Talvez essa seja uma das dores mais silenciosas da vida adulta: a de sustentar quem somos em um mundo que insiste em nos moldar. E, ao mesmo tempo, uma das alegrias mais profundas: perceber que, apesar das tentativas externas, algo em nós permanece íntegro. A sociedade gosta de performances. Pouco se interessa por processos.
Gostamos de ver resultados, não travessias. Aplaudimos quem sorri, mas nos afastamos de quem silencia. Como se o silêncio fosse sinônimo de fraqueza, quando muitas vezes é sinal de sobrevivência.
Há quem silencie porque está cansado de explicar. Há quem silencie porque ainda não encontrou palavras. Há quem silencie porque aprendeu que falar dói mais do que calar. E há quem siga vivendo, equilibrando dores e alegrias, sem que ninguém perceba o esforço envolvido em simplesmente existir.
É preciso dizer: não existe dor pequena quando ela ocupa um coração inteiro. Não existe sofrimento irrelevante quando ele atravessa uma história. A tentativa de comparar dores não diminui o sofrimento — apenas empobrece nossa humanidade. Todos carregamos algo que o outro não vê. Todos travamos batalhas silenciosas. Todos aprendemos, à nossa maneira, a conviver com o que dói e a proteger o que alegra.
Talvez a maturidade não esteja em entender completamente o outro — isso é impossível — mas em respeitar aquilo que não conseguimos alcançar. Em aceitar que o sofrimento alheio não precisa fazer sentido para merecer cuidado. E que a alegria do outro não precisa ser barulhenta para ser verdadeira. Há uma beleza discreta em quem segue, mesmo ferido. Há uma dignidade silenciosa em quem sente e não endurece. Há coragem em continuar sendo quem se é, mesmo quando isso custa.
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No fim, somos todos feitos dessa mistura instável: silêncio, dor e alegria. Não em partes iguais, não em ordem previsível. Às vezes a dor pesa mais. Em outros dias, a alegria encontra brechas. E o silêncio costura tudo isso, mantendo-nos inteiros o suficiente para continuar.
Talvez seja isso que nos una: não a ausência de sofrimento, mas a capacidade — ainda que frágil — de atravessá-lo. E não a alegria constante, mas os pequenos instantes em que ela se apresenta, quase tímida, dizendo que vale a pena permanecer. Porque ser quem se é dói. Mas também salva. E reconhecer isso — em nós e no outro — talvez seja o gesto mais humano que ainda nos resta.(Foto: Sofia Alejandra/Pexels)

AFONSO ANTÔNIO MACHADO
É docente e coordenador do LEPESPE, Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte, da UNESP. Leciona na Faculdade de Psicologia UNIANCHIETA. Mestre e Doutor pela UNICAMP, livre docente em Psicologia do Esporte, pela UNESP, graduado em Psicologia, editor chefe do Brazilian Journal of Sport Psychology.
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