No dia 15 de novembro de 1908, o médium Zélio Fernandino de Morais, então com apenas 17 anos, incorporou o Caboclo das Sete Encruzilhadas. A entidade anunciou a fundação de uma nova religião: a Umbanda. Cento e dezessete anos depois, a religião e praticantes continuam sendo vítimas de preconceito e discriminação. Em Jundiaí, o último episódio envolvendo a Umbanda ocorreu numa escola infantil. Um garotinho, filho de praticantes, foi discriminado por colegas por usar uma guia de proteção. O vereador Cristiano Lopes apresentou projeto que cria a Política Municipal de Proteção à Liberdade Religiosa e de Combate à Intolerância e à Discriminação Religiosa nas Escolas Públicas e Privadas de Jundiaí. O Jundiaí Agora entrevistou com o babalorixá Gihad Abbas(foto), do Templo de Umbanda Casa de Caboclo e presidente da UniTerreiros(Associação União Beneficente das Comunidades de Terreiro de Jundiaí e Região):
Como o senhor analisa o ocorrido na Emeb? Tem conhecimento se isto é frequente em escolas?
Lamento muito pelo ocorrido na Emeb e infelizmente esta situação é bastante recorrente. Na verdade, o preconceito ainda é muito enraizado entre os não adeptos das religiões de matriz africana(Umbanda e Candomblé) e o respeito é cada vez menor! O preconceito e a discriminação vem por diversas formas e acredito que todos os praticantes das religiões de matriz africana, em algum momento, já sofreram preconceito, ainda que de forma disfarçada. Isto ocorre quando recusam alugar um imóvel para instalação de um templo religioso da nossa raiz ou quando criam obstáculos para a realização de eventos públicos do povo de terreiro. Foi notório também quando em 2017, os praticantes das religiões de matriz africana sofreram discriminação e racismo religioso dentro da Câmara Municipal, ato praticado por um vereador à época e que foi, inclusive, objeto de ação penal oportuna. Ou seja, não estamos livres de preconceito nem mesmo de alguns representantes da casa legislativa. O fato é que a nossa presença e atuação constantes junto ao Poder Público tem nos dado mais respeito e afastado, ao menos em tese, o preconceito.
NA HORA DE PEDIR DESCULPAS POR DETERMINAÇÃO JUDICIAL, PARLAMENTAR DISSE QUE PERDOAVA UMBANDISTAS
Diz-se que os pequenos não têm preconceito. De onde vem uma discriminação feita por crianças contra outra criança? Dos pais? Da internet?
É difícil afirmar de onde vem o preconceito nestes casos, até mesmo porque não acho justo culpar um ou outro por isso. O fato notório é que o preconceito sempre vem, inevitavelmente, de um cenário de desconhecimento das práticas das religiões de matriz africana. Em razão do pouco espaço que nos é dado de modo geral, se comparados aos demais seguimentos religiosos, acabamos sofrendo preconceito simplesmente pelo fato de que as pessoas não buscam a informação adequada e correta sobre os cultos, alimentando-se muitas vezes das palavras de outras pessoas e dirigentes de outras religiões, que propagam essa prática criminosa de racismo religioso e preconceito de modo geral. Somente a informação, juntamente da presença e da conquista de mais espaço de modo geral, trazendo visibilidade para as religiões e seus praticantes, é que de fato o preconceito passará por uma mudança de cenário, já que a população em geral poderá ver que aquilo que lhe foi dito pelo dirigente da sua religião não se coaduna com a prática efetiva da religião de modo geral.
VEREADOR PRATICANTE DA UMBANDA SE SENTE EXCLUÍDO E DISCRIMINADO
Espiritualmente, disseminar preconceito entre seres ingênuos como as crianças é pior do que entre adultos?
Sob meu ponto de vista, disseminar qualquer tipo de preconceito é uma prática que deveria ser repudiada, seja de quem for e contra qualquer seguimento religioso. Então seja espiritualmente ou moralmente, disseminar preconceito é uma prática indevida e não se alinha com qualquer das práticas religiosas que conheço!
O que acha da iniciativa do vereador apresentar um projeto para coibir a intolerância e a discriminação?
Toda iniciativa de lei neste sentido é bem vida e parabenizo o vereador Cristiano Lopes pelo empenho! Porém, sabemos que existem um enorme abismo entre o texto da lei e a prática efetiva daquilo que está previsto no texto, isso sem falar nas punições advindas da lei.
DISCRIMINAÇÃO RELIGIOSA EM ESCOLA: PROJETO PREVÊ COMBATE
Acha que através de leis este problema será resolvido?
Acredito que a existência de um conjunto de leis que possa tutelar essas situações é muito importante e traz relevância legislativa para a matéria, entretanto, somente a lei não é suficiente! Além da lei, acredito que campanhas educacionais para a população, qualificação dos agentes envolvidos na educação e na fiscalização das leis, bem como um maior espaço para as religiões como a Umbanda e o Candomblé frente ao poder público, fariam certamente com que a intolerância religiosa, a discriminação e o racismo religioso fossem em muito reduzidos, uma vez que o agressor, frente a um número maior de pessoas conhecedoras das práticas religiosas de matriz africana, não encontraria forças para sustentar suas ações. Hoje, quando nos deparamos com a prática de qualquer ato de racismo religioso ou intolerância religiosa, infelizmente ainda é muito difícil que a autoridade policial reconheça de pronto esta prática determine a prisão em flagrante do agressor, na forma da lei. O que acontece, infelizmente, é uma atenuação inicial da prática para que, em um eventual inquérito policial, as provas de materialidade do referido crime sejam demonstradas e, somente após um longo tempo, é que se torne possível aplicar a lei.
Jesus disse: “Não julgueis, para que não sejais julgados”. Acha que um dia estas palavras serão respeitadas de fato e não ditas da boca para fora?
Espero sinceramente que, independentemente da crença religiosa, o respeito e a tolerância prevaleçam sobre o desrespeito e que as palavras de Jesus sejam fortalecidas especialmente em face daqueles que se esquecem dos ensinamentos básicos de suas religiões!
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