21, março , 2019
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O envolvimento de Jundiaí na REVOLUÇÃO CONSTITUCIONALISTA

Era uma noite de sábado muito fria, há exatos 86 anos. Nove de julho de 1932. Os jovens jundiaienses se divertiam na quermesse do Mosteiro São Bento. Outros estavam reunidos na padaria A Paulicea para uma conversa regada a café, conhaque e Vermute para espantar a temperatura baixa. Outros flertavam em frente a Catedral Nossa Senhora do Desterro no vai e vem do tradicional footing. Mas algo acontece e mexe de vez com a calma da bucólica Jundiaí dos anos 1930! A cidade irá mergulhar na Revolução Constitucionalista.

O rádio avisa que havia sido deflagrada uma revolução em São Paulo e o estopim foi a morte de quatro estudantes: Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo. As iniciais dos nomes desses rapazes formaram a sigla MMDC que transformou-se no símbolo da revolução de 1932.


REVOLUÇÃO

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Acima, combatentes jundiaienses da Revolução de 1932. Em pé da esquerda para a direita: um amigo querido o saudoso Hugo Anaruma, que nos anos 1990 me presenteou com uma medalha da Revolução. Agachado, à esquerda, o médico e ex-prefeito doutor Antenor Soares Gandra


Para entender um pouco melhor o conflito vamos voltar um pouco mais no tempo. Logo após a Revolução de 1930, golpe de Estado que levou Getúlio Vargas ao poder, os paulistas ficaram muito insatisfeitos já que ele nomeou interventores para os Estados.

Os paulistas esperavam que fosse cumprida a promessa de novas eleições. O tempo foi passando e o Governo não convocava o pleito e os fazendeiros de São Paulo encabeçavam as manifestações contrárias ao Governo Provisório de Vargas. Estes protestos contavam com a participação de estudantes universitários, comerciários e profissionais liberais. Os paulistas exigiam do governo provisório uma nova Constituição e a convocação de eleições para presidente. Também exigiam a mudança do interventor e criticavam duramente a maneira autoritária com que Vargas vinha conduzindo a política do país. O povo de São Paulo queria mais liberdade e participação.

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A notícia do movimento constitucionalista tomou conta de Jundiaí e de todo o interior. No dia 11, segunda-feira, o médico Antenor Soares Gandra marcou uma reunião na Paulicea que ficava na Rua Barão de Jundiaí, número 890. Centenas de jovens compareceram. Nessa reunião, Gandra alertou, argumentou e convenceu os presentes da importância da participação de Jundiaí na luta pelo ideal democrático e constitucional. Muitos aderiram de pronto e durante a semana houve uma intensa propaganda e preparação para os que buscavam os postos de alistamento.

No domingo, dia 17, às 10 horas, uma multidão se concentrou no Largo São Bento, hoje denominada Praça Tibúrcio Estevan de Siqueira (em homenagem ao grande jornalista). Além dos soldados alistados, pais, filhos, irmãos, avós, tios e amigos estavam ali para uma despedida que poderia ser a última.

Na emocionante solenidade os soldados perfilados em formatura marchando por toda rua Barão de Jundiaí na direção da vila Arens até chegar na Estação Ferroviária da antiga São Paulo Railway de onde seguiram de trem para a São Paulo. Durante todo trajeto até a estação de trem, os soldados recebiam elogios. Quem ficava gritava:
“Viva Jundiaí! Viva São Paulo! Deus os acompanhem! Viva a Democracia! Obrigado, bravos jovens !!!”. Na foto principal, os soldados de Jundiaí preparados para a guerra. A foto foi tirada na rua do Rosário, praticamente em frente da antiga Companhia de Comunicação (Ciacom). Ao fundo é possível ver o Gabinete de Leitura Ruy Barbosa.

Toda comoção dessa primeira caravana aguçou o sentimento constitucionalista e democrático em outros jundiaienses que se inscreveram e foram às armas para combater a ditadura Vargas e proteger sua gente. Cinco dias depois, em 23 de julho, mais um contingente fez o mesmo trajeto rumo a cidade de São Paulo se juntando ao primeiro grupo e lá formaram o 1º Batalhão de Reservas do Exército onde às pressas foram treinados, preparados e instruídos e assim foram para o front de batalha. E morreriam se assim fosse preciso para o Brasil ser livre e melhor.

O hino de nossa cidade foi inspirado no ideal constitucionalista e Haidée Dumangin Mojola carinhosamente chamada de ‘Dedé’ compôs naquele ano mesmo a marcha que 28 anos mais tarde viria se tornar oficialmente o hino de Jundiaí. Contudo, só através da lei 869 de 17 de novembro de 1960 é que a música foi reconhecida oficialmente como hino de Jundiaí. Esse trecho do hino retrata bem isso: “Terra gentil, altruísta, De ti me orgulho, Pois és bem paulista! Teus filhos com devoção Marcham pra luta como heróis cheios de fé em sua oração”

As mulheres de Jundiaí também tiveram uma participação efetiva na Revolução, na confecção de fardas, montagem de material de primeiros socorros, organizando o movimento “Ouro para São Paulo” onde a população trocava alianças e outras jóias de ouro por anéis e alianças de prata com os dizeres: “doei ouro para São Paulo”. Também lotaram a praça da Catedral com doações de ferro velho para a confecção de capacetes de aço.

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Quando São Paulo iniciou a revolta contra o Governo Provisório de Getúlio Vargas, os líderes do movimento achavam e esperavam um breve conflito, que seria apenas uma marcha até o Rio de Janeiro, então capital do Brasil, para depor o Presidente. A solidariedade efetiva e adesão automática das elites políticas de Minas Gerais e Rio Grande do Sul não se concretizou e São Paulo ao lado apenas do Estado de Mato Grosso lutou bravamente contra esses outros Estados que reagiram ao nosso movimento articulados pelos getulistas. São Paulo foi obrigado a organizar a defesa de suas fronteiras.

O conflito terminou em 2 de outubro de 1932 com a rendição do Exército Constitucionalista. Foram 87 dias de combates e deixou oficialmente 934 mortos. Outras fontes de pesquisa apontam para o dobro desse número de vítimas. Milagrosamente, Jundiaí teve apenas uma baixa, o soldado Jorge Zolner(foto abaixo).

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Jundiaí não ficou fora dos bombardeios. Segundo relatos do saudoso Orlando Negri que tinha 14 anos em 1932, o barulho dos motores dos aviões chamava a atenção da população que saía para ver os “Vermelhinhos” como eram chamadas as aeronaves Boeing F-4B4 da ditadura Vargas.

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No dia 16 de setembro daquele ano, uma chácara da Ponte São João foi atingida por um bombardeio que deixou uma enorme cratera no local onde seria construída, anos mais tarde, a escola Ana Pinto Duarte Paes, na rua Carlos Gomes.

Ele contava também que um garoto morador nas imediações se feriu, meses depois, ao manusear um artefato que não havia detonado. Outras cidades também foram bombardeadas. Entre elas, São Paulo, Santos e seu porto. Dois dias após o bombardeio em Jundiaí, Campinas sofreu um grande ataque à sua estação ferroviária, matando o menino escoteiro Aldo Chioratto, de nove anos. Em sua urna foi colocada a inscrição: “Inocência, coragem e civismo aqui repousam”. Aldo é a única criança homenageada no Obelisco Mausoléu aos Heróis da Revolução Constitucionalista de 32, monumento localizado no Ibirapuera, em São Paulo, que abriga os restos mortais dos combatentes do levante paulista contra o governo provisório de Getúlio Vargas.

Poucos sabem, mas Alberto Santos Dumont, o pai da aviação, suicidou-se em plena Revolução de 1932. Segundo relatos de amigos e parentes, ele já deprimido não suportou ver seu invento matando compatriotas.

Por sempre gostar de ouvir as histórias dos que nasceram antes mim, tive a honra de conhecer alguns dos nossos heróis como Pedro de Oliveira, meu tio-avô que combateu em Itapetininga, importante posto de resistência. Hugo Anaruma, que em 1992 se tornou um grande amigo meu e de meu irmão e me presenteou com muitos dias de conversa e bom humor. Ele tinha uma narrativa incrível e deu a mim uma medalha que recebeu por bravura em 1932. Recusei num primeiro momento lhe dizendo que era muito importante pra ele. Anaruma retrucou dizendo que estaria em boas mãos e que era de coração. Cedi aos argumentos e guardo com honra e carinho (foto abaixo).

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Mas o melhor presente foram os dois anos de convívio e as centenas de horas ouvindo as experiências dele vividas no maior movimento cívico de nossa história, como é considerado o Nove de julho pelo Povo Paulista. Tive também outras prosas ricas e bem detalhadas com o José Augusto Pupo que deixou para a história um livro sobre suas experiências na revolta e também outras boas conversas com o tenente Armênio Almeida Souza que junto com outros lutou muito para a preservação dessa bela história através da Associação dos Ex-Combatentes de 1932. A associação levantou fundos para a construção do Obelisco em homenagem aos heróis e foi construído em frente o Parque da Uva.

Este monumento não foi tratado à altura de sua importância. Foi demolido na reestruturação do Parque Comendador Antônio Carbonari em 2004. Apenas a estátua de bronze foi para o Solar do Barão e hoje se encontra solitária no canteiro no final da avenida Nove de Julho, avenida que ganhou este nome em homenagem a data máxima do povo paulista. Temos também o Viaduto na avenida Itatiba, uma grande obra que foi construída com recursos próprios de nossa cidade na gestão de Pedro Fávaro. O viaduto recebeu o nome General Euclydes de Oliveira Figueiredo que foi um de nossos líderes no conflito e Pai de nosso último presidente militar, o general João Batista Figueiredo.

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Dentre tantos outros Jundiaienses que combateram, destaco os já citados acima e também Nicodemo Petrone, João Castilho de Andrade , Dr. Adoniro Ladeira, Dr. Antenor Soares Gandra, Mário Leandro Luiz de Faria(avô do amigo Márcio Cozatti), José Seckler Machado, Hugo Anaruma, José de Godoy Ferraz, Dr. Quinque Fortarel, Sandro Vendramini, Lindolfo Paixão, Nelson Maselli, Haroldo Moraes, José Barreto, Adolpho Guimarães, General Carlos Gomes Alcântara, Haroldo de Moraes, Camargo Reinaldo Orsi, José C. Marcondes, Antonio R de Oliveira, Alceu Moraes, Juracy Palpério, Nelson Mazelli, Eduardo Pelegrine, Francisco de Queiroz Tellez, Jerbos de Araujo Gegê Pinto, José Barreto, Juvelino Figueiredo Farias, Abelar C. da Silva, Gothardo Simões, Reller, Professor Miller, Jorge Cury, Armando Ferreira, Eduardo Pelegrine, Hassib Cury, Moacir Campos, Eugênio Lacerda, José Antonio Paulielo, Abelardo Corrêa, Benedito Fagundes Peixoto, Sargento Antônio Raimundo de Oliveira, Archipo Fronzaglia, Rodolpho S. Bomeisel, Benedito Fagundes de Castro, Ernani Gumerato, Eugênio Lacerda Justino Chagas, Severiano Paixão e Pérsio Campos.


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Sobre as fotos acima (no sentido horário): O ex-combatente Pedro de Oliveira ostentando suas medalhas; Nicodemo Petroni (à direita); tenente Armênio Almeida Souza, José Augusto Pupo (autor do livro “Memórias de um ex-combatente de 32”); Desfile dos ex-combatentes em 9 julho de 1969; Adolpho Guimarães(1º da esquerda); General Carlos Gomes Alcantara(3º sentado da esquerda para a direita); soldado José Barreto(3º da esquerda para a direita); caricatura feita pelo grande artista plástico jundiaiense Diógenes Paes; cartaz do MMDC. (Texto: professor Maurício Ferreira)

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