Inteligência Artificial x ARTE: E a ética?

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Hoje trago algo um pouco diferente do que geralmente me proponho: gostaria de trazer um tema relacionado a arte e cultura em escala mundial. Desenvolvo aqui uma reflexão de uma artista autoral perante a geração de conteúdo de inteligência artificial. Recentemente vi o boom de uma nova trend nas redes sociais em relação a geração de imagens. Talvez você tenha visto algumas fotos de pessoas que conhece sendo transformadas em ilustrações com traços de um anime fofo e de características arredondadas. Em todas essas gerações de imagem, houve um resgate dos atributos visuais de um estúdio de animação japonês, o Studio Ghibli, tendo como nome principal o animador Hayao Miyazaki, responsável por desenvolver a maior parte da identidade visual dos filmes de animação do estudio. 

Hayao é considerado um dos maiores gênios da animação no mundo há décadas. Os filmes do Studio Ghibli são os filmes favoritos de muitos, inclusive eu sou uma dessas pessoas. Sou tão apaixonada pelas animações que até já cogitei ter tatuado em minha pele certos personagens, então é de se imaginar que quando vi que qualquer pessoa poderia ser “transformada” em um personagem dos filmes, é óbvio me que animei imensamente.

Sendo bem sincera, toda minha euforia não me permitiu analisar por inteiro a situação, tanto que até cheguei a pensar em qual foto enviaria a IA, mas depois de analisar com mais cuidado me lembrei de todas as problemáticas em torno dessa trend com aparência fofa e inofensiva. 

Quando geramos imagens por meio de IA, concordamos consequentemente em haver um resgate de um infinito banco de imagens que a inteligência consegue acessar. Ou seja, ela busca na internet imagens feitas por seres humanos, mas ela não credita ou pede autorização do autor. Assim, eu, uma artista visual no interior de São Paulo poderia ser afetada assim como um dos artistas mais renomados do Japão. Em ambos os casos, mesmo havendo esse resgate em diferentes escalas, não temos controle de uma obra que nós mesmos criamos se estiverem em algum canto da internet.

A IA de fato não irá respeitar limite ético de quando é ou não correto creditar ou autorizar, e aqui menciono mais uma vez o caso do Hayao. Em uma entrevista feita em 2016, quase uma década atrás, ele se posicionou dizendo que “fortemente isso (geração de imagens por meio da inteligência artificial) é um insulto à própria vida” e que “nunca desejaria incorporar essa tecnologia em meu trabalho”, assim como se disse estar enojado com isso. Acontece que se nós pedirmos ao ChatGPT ou qualquer outra plataforma que a inteligência gere uma foto inspirada nas animações do Studio Ghibli, assim ela fará! Não irá nessa seção da internet onde o autor se posiciona contra. Irá seguir apenas as instruções que damos a ela.

Voltando para a comparação do efeito dessa ferramenta na vida de uma artista no interior de São Paulo e um gênio renomado da animação, existe um abismo que nos diferencia. E esse abismo gira em torno de reconhecimento e dinheiro. É eticamente questionável em qualquer caso, porém quando falamos de artistas independentes, acredito que é ainda mais visível a problemática. Usarei aqui para exemplificar o trabalho da Arima Rayana, uma amiga e artista natural de Jundiaí. A Arima possui um traço único, e fez isso após décadas de desenvolvimento. Ela estudou técnicas dentro e fora da faculdade, inseriu sua perspectiva pessoal de vida e conseguiu chegar hoje em um estilo muito bem definido tanto nas cores como nas formas. Atualmente a artista exibe em galerias de arte, e para que continue a exibir ela precisa divulgar sua arte, mas onde um artista independente faz isso? Na internet. Queiramos ou não, a realidade é que artistas independentes necessitam publicar suas obras on-line. Fazendo isso, é possível que algum dia, alguém em qualquer lugar do mundo deseje gerar uma imagem, e envia certos comandos para isso. Em uma escolha específica de palavras, é possível que essa pessoa faça a IA acessar as artes de Arima, e nem a pessoa que enviou os comandos nem a própria artista terá conhecimento disso.

Nesse cenário aqui retratado, uso propositalmente uma artista regional e periférica pois sinto que a maioria das pessoas ainda não percebeu o quanto isso pode nos afetar diretamente assim como afetar pessoas próximas a nós. A Arima já possui o desafio que é contar uma narrativa por meio de traços visuais característicos, além de ser sua própria assessora e produtora de conteúdos de divulgação nas redes sociais. Desde a criação dessas ferramentas de geração de imagens, agora ela também tem que lidar com um medo iminente de ter seu estilo de arte roubado de si, ser usado por quem quiser antes mesmo dela alcançar o patamar de reconhecimento e qualidade financeira que sonha. 

Ainda assim, talvez certos negacionistas do assunto poderiam argumentar dizendo que no mercado artístico, sempre houve roubos e cópias. De fato, sempre houve. Mas antes havia uma escolha de um indivíduo, não de uma máquina, e antes havia um pouco mais de controle, coisa que hoje, sem devidas legislações que normalizam direitos autorais dentro de IAs, não há de forma alguma. O dano se estabelece consequentemente em toda a classe artística. 

Não pretendo soar como alguém que demoniza os avanços tecnológicos, quero apenas evidenciar o quanto, nesse nicho, devemos sim nos preocupar. O que podemos fazer é trazer esse assunto à tona e pressionar as empresas, organizações públicas e forças políticas a, além de desenvolver projetos de lei, colocá-los em prática. Em setembro de 2023 Rodrigo Pacheco (PSD/MG), na época presidente do Senado, propôs o Projeto de Lei nº 2.338/2023 que visa a regulamentação de inteligência artificial, contendo dentro dele também a questão de direitos autorais e imagens generativas. Atualmente, o projeto está em tramitação no Senado Federal, e longe de entrar em vigor, uma vez que não foi aprovado e, mesmo que fosse hoje, entraria em vigor um ano após sua publicação oficial. ​

Em dezembro do ano passado houve além de uma reunião no Senado para discutir o assunto e suas emendas, também houve envolvimento de artistas no local por meio de uma coletiva de imprensa. Uma dessas artistas foi Marina Sena, que ao meu ver resume muito bem o que eu, por meio de tantas linhas quis dizer. Nas palavras dela, “Ninguém está aqui lutando contra a inteligência artificial, porque a inteligência artificial a gente entende como uma tecnologia que veio também para trazer progresso. Mas a gente entende que, se há empresas ganhando bilhões com isso, essas empresas precisam arcar com as consequências e precisam arcar com essa mineração de dados que fazem com a nossa obra, com a nossa vida. E não só a nossa vida, mas a vida de toda a população brasileira”.

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Pode parecer curioso como Hayao Miyazaki, um senhor japonês de oitenta e poucos anos e Marina Sena, uma cantora brasileira de vinte e poucos anos podem compartilhar do mesmo pensamento, julgar essas ferramentas “uma agressão a vida em si”. Ao meu ver, essa similaridade faz todo o sentido. Nós, artistas, inserimos nosso esforço em trabalhar novos olhares e perspectivas de como vemos o mundo, ou seja, a ‘vida’. Assim como Arima Rayana, a maioria estuda muito as técnicas, mas também abraça as nuances das nossas próprias experiências, e em uma combinação única expressamos isso por meio da arte. Termos todo esse desenvolvimento de ideias e ideais pegos por uma máquina sem nosso consentimento é revoltante para qualquer um. Se me perguntar, diria que estranho é o artista que vê a inteligência artificial apenas como mais uma trend para seu feed. Com informações da Agência Senado/The Independent UK/IGN Brasil.(Ilustração Arima Rayana)

ANNA CLARA BUENO

De nome artístico Anubis Blackwood, é drag queen, artista performática e visual, professora de inglês, palestrante e produtora cultural. É membro do coletivo Tô de Drag, o primeiro de arte drag de Jundiaí e região. Colabora com o ‘Grafia Drag’, da UFRGS. Produz o festival Drag Vibes em colaboração com o coletivo, para democratizar a arte drag, mostrar sua versatilidade e levá-la a espaços e públicos novos por meio de performances plurais e muito diálogo.

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