O que adianta eleger Lula se o Orçamento Geral da União continuar sendo sequestrado por emendas de relator e por pautas-bomba aprovadas por essa maioria? O que adianta Haddad no Palácio dos Bandeirantes se a Alesp continuar dominada por deputados que votaram contra o aumento do piso dos professores, contra a desprivatização da Sabesp e a favor da PM matar mais pobres nas periferias? É por isso que votar na esquerda em 2026 não se limita ao voto para presidente e governador. É imperativo que o eleitor de Jundiaí vote em candidatos e candidatas ao Senado, à Câmara dos Deputados e à Assembleia Legislativa que estejam comprometidos com as pautas populares.
Na cidade, isso significa prestar atenção nos nomes do PT, PSOL, PSB, PCdoB, Rede e demais partidos progressistas que disputam as vagas proporcionais. Significa eleger ou reeleger deputados federais que destinem emendas para a conclusão do Hospital São Vicente e para a despoluição do Rio Jundiaí. Significa eleger deputados estaduais que lutem pelo fim das filas nos postos de saúde dos bairros do Vetor Oeste e pelo transporte ferroviário de verdade para a Região Metropolitana de Jundiaí. E significa, sobretudo, eleger um senador ou senadora da esquerda, porque o Senado, atualmente tomado por figuras do bolsonarismo e do centrão, é a última trincheira para travar a aprovação de pautas como a PEC da Escala 6×1, a taxação dos super-ricos e a regulação das plataformas digitais e quem sabe, renda básica…
Sem um Legislativo forte e progressista, o Executivo de esquerda fica refém. Lula já viveu isso em seu terceiro mandato: aprovou pautas importantes, mas viu o Centrão sequestrar a articulação política e impor um “orçamento secreto” que alimentou máfias e ineficiência. Haddad, como ministro, teve que negociar com essa mesma base para aprovar a reforma tributária e o resultado foi um texto cheio de exceções para setores bilionários. Em 2026, o cenário pode ser ainda pior se o legislativo não avançar um centímetro à esquerda. Por isso, o voto na urna não pode ser apenas para presidente e governador. O eleitor deve levar a sério o voto para deputado federal, deputado estadual e senador e, claro, para vereador nas eleições municipais de 2028, que pavimentam o caminho.
Culturalmente, Jundiaí vive um paradoxo. A cidade tem tradição de resistência: movimento dos anistiados políticos nos anos 1970, da greve dos metalúrgicos de 1985, movimento LGBTQIA+ nos anos 2000. Mas também testemunha um crescimento do conservadorismo moral, alimentado por igrejas neopentecostais e por vereadores ligados ao armamentismo e a “escola sem partido”. Votar na esquerda em 2026 é também resistir a esse avanço reacionário. É eleger deputados estaduais e federais que defendam a cultura como direito: teatros de periferia, saraus, bibliotecas comunitárias, contra o corte de verbas que a direita sempre impõe. É garantir que a Marcha do Orgulho LGBT de Jundiaí continue tendo o apoio do poder público e não a perseguição moral. Nenhuma dessas conquistas se sustenta se a Câmara dos Deputados estiver sob comando de quem chama arte de “doutrinação” e direitos humanos de “privilégio”.
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Concluo, pois, com a voz do historiador: as conjunturas favoráveis são raras na política brasileira. Ter Lula com altas chances de reeleição e Haddad em ascensão não é um dado natural é uma construção coletiva que exigiu derrotar o bolsonarismo nas ruas e nas urnas em 2022. Mas essa mesma conjuntura pode se perder se a esquerda jundiaiense adormecer, acreditando que “já ganhou”. Não, camaradas. A cidade que viu nascer movimentos sindicais no início do século XX não pode agora se contentar com migalhas. Votar em Lula, Haddad e, com o mesmo afinco, nos candidatos ao Legislativo (senadores, deputados federais, estaduais) é honrar essa memória de luta. É garantir que o progresso não seja apenas para quem mora nos condomínios da rodovia Anhanguera, mas para toda a classe trabalhadora que constrói Jundiaí com suor, poeira e esperança. O passado anarquista nos ensina: nenhuma conquista é permanente. O futuro nos convoca: votar com consciência de classe, em todos os níveis, nunca foi tão urgente.

JOSÉ FELICIO RIBEIRO DE CEZARE
Mestre e doutorando em Ensino e História de Ciências da Terra pelo Instituto de Geociências da Unicamp. Membro da Academia Jundiaiense de Letras. Pesquisador, historiador, professor, filósofo e poeta. Coeditor da Revista literária JLetras. Para saber mais, clique aqui. Redes sociais: @josefelicioribeirodecezare.
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