A BENGALA BRANCA e a curiosidade alheia

bengala

Existe uma convenção social silenciosa que todos parecem respeitar. Você está andando pela rua, vê uma pessoa passando e simplesmente segue sua vida. Ninguém para um desconhecido para perguntar: “onde você está indo? Vai trabalhar? Vai ao médico? Está indo para a igreja?”. Seria estranho. Muito estranho. Imagine um sujeito atravessando a praça com uma mochila nas costas. Ninguém corre atrás dele para descobrir qual é seu destino final. Uma senhora sai do supermercado com duas sacolas. Ninguém exige uma explicação detalhada sobre o conteúdo das compras ou sobre o itinerário da tarde. A regra é simples: cada um cuida da sua vida. Ou pelo menos deveria ser. Porque parece que essa convenção desaparece misteriosamente quando uma pessoa está segurando uma bengala branca.

É quase como se a bengala não servisse para identificar uma deficiência visual, mas para conceder ao resto da humanidade uma licença especial para a investigação particular. De repente surgem perguntas de todos os lados: “está indo para onde? Mora longe? Foi ao médico? Está sozinho?”. Às vezes falta apenas perguntarem o CPF, o saldo da conta bancária e a senha do Wi-Fi. O curioso é que ninguém parece perceber o quanto isso é estranho. Afinal, por que exatamente uma pessoa cega deveria explicar seus movimentos para desconhecidos?

Existe uma espécie de roteiro invisível na cabeça de muita gente. Quando veem alguém com uma bengala branca, imaginam imediatamente três possibilidades: está indo ao médico, está indo para a igreja ou está voltando para casa. Fim da lista. Como se pessoas cegas não trabalhassem, não estudassem, não fossem ao cinema, não fossem ao shopping, não saíssem para encontrar amigos ou simplesmente passear.

Às vezes a situação fica até engraçada. Parece que existe uma dificuldade coletiva em aceitar que uma pessoa cega possa estar fazendo exatamente a mesma coisa que qualquer outra pessoa faz numa tarde comum. A verdade é bem menos misteriosa do que muitos imaginam. Talvez eu esteja indo trabalhar. Talvez eu esteja voltando do trabalho. Talvez eu esteja indo tomar um café. Talvez eu esteja resolvendo um problema. Talvez eu esteja apenas caminhando sem destino definido. E talvez — veja só que ideia revolucionária — eu esteja simplesmente vivendo minha vida.

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A bengala branca não é um pedido de ajuda permanente. Não é um convite para interrogatórios. Muito menos um anúncio de incapacidade. Ela apenas substitui um sentido que não funciona da mesma forma. O resto continua igual.

Temos compromissos, responsabilidades, preguiça em alguns dias, pressa em outros, vontade de passear, vontade de ficar em casa e até aquela clássica missão de sair apenas para comprar pão e voltar uma hora depois sem saber exatamente como isso aconteceu. No fim das contas, a verdadeira inclusão talvez comece quando a sociedade entender uma coisa muito simples: uma pessoa cega andando pela rua não é um enigma a ser decifrado. É apenas uma pessoa andando pela rua. (Foto: Gustavo Fring/Pexels)

JOÃO VITOR FRANCO GOUVEIA

É formado em Acessibilidade Digital, graduado em Gestão de RH e com certificação ITIL 4 Foundation, atua como monitor de informática para pessoas com deficiência visual no Instituto Jundiaiense Luiz Braille. Trabalha com tecnologia, inclusão e autonomia digital, acredita no uso da tecnologia como ferramenta de transformação social e defende que a inovação só faz sentido quando promove inclusão e acesso para todos.

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