Nos áureos tempos do Jornal da Cidade, nos anos 90, uma redação lotada de repórteres e notícias bem pautadas pelo chefe de reportagem Luiz Alberto Lessi também tinha espaço para a descontração. O bom humor era presença constante naquele ambiente. Foi então que Marco Sapia, repórter policial e especiais (hoje editor do JA), teve a ideia de fazer essa alegria extrapolar as paredes do JC da forma mais jornalística possível: um tabloide de quatro páginas, em preto e branco, publicado aos domingos, a cada 15 dias. Nascia o Babilônia City — o Caderno de Humor do JC.
Material não faltava. Principalmente fotográfico, graças à equipe de repórteres fotográficos e às nossas cabeças, que até hoje habitam um universo paralelo. Cada fato ganhava uma nova narrativa, sempre bem-humorada e recheada de detalhes. Assuntos da atualidade e até datas comemorativas viravam pauta, tratados com todo o rigor da apuração… e nenhuma obrigação de levar a realidade muito a sério.
Quem é de Jundiaí deve se lembrar do enorme tênis modelo All Star que ficou um bom tempo no estacionamento da loja de calçados DIC em frente ao antigo prédio do JC, aquele que exibia num painel as manchetes que seriam publicadas no dia seguinte. Quem vinha pela rua Baronesa do Japi dava de frente com o painel e se olhasse à esquerda via a saudosa estação rodoviária(hoje Terminal Central). À direita ficava o DIC. Pois bem, no Babilônia City o tênis virou acessório esquecido durante a passagem do Gigante Adamastor que devastara Jundiaí, fato registrado numa ‘reportagem’ tresloucada. Originalmente, Adamastor aparece em ‘Os Lusíadas’, de Luís Vaz de Camões. Mas ele deu uma escapadinha do livro do poeta português e pisoteou a Terra da Uva. Claro que tudo foi ilustrado com uma montagem clássica, feita com a minha tecnologia de ponta disponível na época: tesoura, cola Prit e muita falta do que fazer.
O Babilônia também noticiou a primeira “Sessão Espírita da Câmara Municipal”. Com fotos de alguns vereadores, fiz caricaturas deles vestidos como entidades da Umbanda, enquanto Marquinho Sapia produzia textos impecáveis, carregados daquele humor inteligente que fazia a gente rir primeiro e pensar depois.
Fizemos ainda uma edição especial de Finados, eternizada por uma frase do Marco: “Somente os mortos não compareceram à festa”. Na capa, montei recortes sobre uma foto do antigo plenário da Câmara Municipal. Sem falar numa imagem hilária de vários vereadores flagrados numa investigação da segurança dos brinquedos, nos antigos gira-giras do Parque da Uva. Depois de horas de trabalho investigativo, a única evidência encontrada foi areia dentro dos sapatos.
O Babilônia City tinha coluna social com toda a sátira possível — sempre de bom gosto e acompanhada de boas gargalhadas — e a tirinha do Homem Galinha Gato, um herói sem muitos atributos heroicos. Para fechar cada edição, nos reuniamos no quartinho da casa dos pais do Marco, hoje residência dele. Havia ainda um respeitável(e aleatório) Conselho Editorial da Bobagem, composto pelo professor de Kung Fu, o D’Urbano, e pelo Ricardo Garcia, do Uno Vermelho. Tudo era criteriosamente analisado. Se alguém desse risada, a matéria estava aprovada. Se alguém chorasse de rir, virava manchete.
Infelizmente, a promissora trajetória daquele veículo de humor naufragou na terceira edição. O motivo foi a histórica reportagem sobre a “Comissão Especial de Inquérito (CEI) do Vaso Sanitário”. Na época, vereadores acompanhavam a CEI do Aterro Sanitário de Várzea Paulista. E alguém (nós) — provavelmente sem juízo — achou que trocar “aterro” por “vaso sanitário” seria uma boa ideia.
Aí veio a combinação fatal: um texto cômico e uma foto montada de um vereador sentado no vaso sanitário do banheiro da gráfica do JC — um legítimo trono republicano, manchado por décadas de tinta de jornal. Na imagem, ele segurava uma edição do Jornal da Cidade onde eu havia escrito, em letras garrafais, a palavra “CENSURADO”.
Marco encerrou a matéria mais ou menos assim:
— O nobre edil limitou-se a emitir alguns gemidos e, ao final dos trabalhos, declarou: “Alfredoooo… traz o Nevesssss…!”
Foi o tiro de canhão que afundou o navio.
Na segunda-feira seguinte, cheguei ao trabalho e encontrei a porta da sala do Seo Pedro Geraldo de Campos, dono do jornal, aberta. Ele me viu passando e, sem cerimônia, disparou no vozeirão:
— Podem parar com o caderno de humor!!!
Com muito esforço, consegui emitir um tímido:
— Sim, senhor…
Mas confesso que não botei muita fé e segui para a redação.
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Abri a porta e encontrei Marco com aquela clássica cara de Denis, o Pimentinha. Antes mesmo de eu perguntar qualquer coisa, ele soltou, rindo:
— Fodeeeeeeeeu!
E contou o ocorrido.
O vereador sentiu-se profundamente ofendido com a exposição e foi reclamar diretamente ao dono do jornal. O resultado foi o encerramento definitivo do Babilônia City.
O tabloide morreu.
Nós não.
E assim terminou a curta e gloriosa história do jornal mais engraçado que Jundiaí quase teve.

MIGUEL ÉDI GOMES
É jundiaiense, tem 54 anos. É formado em jornalismo pela UniFaccamp e atualmente faz parte da equipe da Assessoria de Imprensa da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo.
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