No início dos anos 1990, a TV passava uma série sobre Nicholas Marshal, um sujeito que era juiz durante o dia e um vingador durante à noite. Marshal fazia justiça com as próprias mãos. Os criminosos que ele era obrigado a soltar por conta de questiúnculas, ele punia pessoalmente depois. Não sei porque encasquetei que um juiz simpático que atuava no Fórum de Jundiaí era parecido com o magistrado da série e pedi uma entrevista. Era o dr. Cláudio Antônio Soares Levada. E ele me tratou de forma simpática e atenciosa. Afinal, poderia ter dito: “você me fez parar as dezenas de processos sob minha responsabilidade para falar sobre essa besteira?”. Levada acabou revelando que outras pessoas já tinham apontado a semelhança com Nicholas Marshal(foto abaixo) e que assistira alguns episódios. Contudo, fazer justiça por conta própria, jamais.

Os anos se passaram, Levada se tornou desembargador e foi trabalhar no Tribunal de Justiça, em São Paulo. Mas, ele não deixou Jundiaí de lado. Envolveu-se, por exemplo, com Paulista Futebol Clube, onde tinha o cargo de conselheiro vitalício. Para mim, nunca negou entrevista. Era tudo o que um jornalista espera de uma fonte do Judiciário: não se omitia, era corajoso e colocava o dedo na ferida. E os ‘offs’? Para quem não sabe, na linguagem jornalística, o ‘off’ é aquela declaração que não pode ser publicada. Os ‘offs’ de Cláudio Levada eram ricos, diretos, precisos e direcionavam para matérias importantes, aquelas que revelam o que deveria ficar encoberto.
Durante um bom tempo Cláudio Levada escreveu no Jundiaí Agora. Escrevia sobre tudo. E escrevia bem. Em janeiro de 2017, sobre o besteirol promovido pelos ‘especialistas’ da internet, o desembargador registrou “surgem a cada momento fakes sobre todas as áreas, principalmente por meio de notícias falsas e especulações variadas sobre o destino de coisas e pessoas: o avião caiu porque os Iluminatti estavam por trás e determinaram sua queda de sua sede secreta em Malta; a doença da ex-primeira dama foi “plantada” porque ela estava na iminência de ser presa; Eike Batista está na Polinésia tomando água de coco e mandando uma banana para a PF etc., isso para ficar só nos boatos da última semana. Cômico, se não fosse trágico, porque nada é mais manipulável do que a opinião pública, especialmente se a notícia da última hora contiver algum indício conspiratório”.

Anos depois, o filho, Filipe Levada, também juiz, viria a publicar crônicas neste on-line. Em muitas, ele revelou como Cláudio era na intimidade, o magistrado e o pai. Em agosto de 2024, para o Dia dos Pais, a família Levada enviou o texto ‘Seus Seis e sua Falta’. O texto:
Somos seus seis e você faz muita falta. Falta nos momentos felizes, no extraordinário, na elevação dos pensamentos e na intensidade dos sentimentos; no sorriso fácil e na gargalhada que tomava todo o espaço. No abraço forte, nas palavras doces e nos olhares que diziam sem precisar falar. Falta nas gargalhadas dos netos ao te verem. Falta você à mesa, devorando a vida. Você faz falta.
Como nos falta chegar à casa e ouvir que tinha algo para buscar. Quão deslumbrante o trajeto com música alta e risadas, chegando ao destino, qualquer que fosse – o espetáculo continuava com todos brincando com você feito amigos de infância.
Sua presença era sempre ansiosamente esperada nas festas de família. Você surgia como uma pessoa normal, retirava os óculos e cumprimentava gentilmente a todos até a sua primeira alta gargalhada ressoar em todo espaço e frestas, preenchendo-os com sua imensa energia, um Big Bang particular.
Com você, as conquistas tinham um sabor a mais. Se havia uma boa nova, você multiplicava o acontecimento e assim ele jamais era esquecido, era tatuagem na alma.
Não há dúvidas de que você, Pai, estará nas conquistas, casamentos, nascimento de netos e bisnetos, graduações e brindes espalhafatosos. Mas fará falta. Falta nos vinhos de domingo, na água gelada, nas idas à feira, no som alto, na água para os beija-flores, nos exageros, no abraço.
É na rotina que vemos a completude da sua inexpugnável falta, em que uma simples folha em branco vira saudade por não se tornar sua agenda diária escrita à mão. Até mesmo uma simples volta de carro vira saudade quando não temos à nossa disposição uma variedade de garrafas de água gelada.

Você faz falta nas respostas pendentes de perguntas que nem sequer sabemos realizar. Também faz falta nas verdades que desmentem mentiras que nos assombram ao cogitar a ideia de errar. E é nessa falta que vemos como você foi Tudo. Um grande e imenso Pai.
Porque você existiu, e existe, é que somos Seus Seis. E te amamos e te amaremos, a cada Dia dos Pais e sempre. Para sempre. Um beijo e até, Papai. Filipe Antônio Marchi Levada, Liliana Maria Marchi Levada Betioli, Fábio Henrique Mölk Marchi Levada, Tatiana Maria Marchi Levada, Nicolas Antônio Andreaça Levada, Igor Antônio Andreaça Levada
Cláudio Levada morreu no dia 6 de setembro de 2021. Teve uma parada cardíaca em Cananéia, onde pescava com parentes. Ele tinha 63 anos, era casado e tinha seis filhos e cinco netos(Marco Antônio Sapia).
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