Toda empresa brasileira tem hoje um funcionário que não consta da folha de pagamento. Não bate ponto, não assinou termo de confidencialidade e trabalha no navegador de quem lhe pediu ajuda. Chama-se shadow AI, a inteligência artificial paralela, e está mais difundida do que muitos conselhos admitem. Pesquisa da SAP com a Oxford Economics, feita com 2.600 líderes em 13 países, indica que em 82% das empresas brasileiras os funcionários usam, ao menos ocasionalmente, ferramentas de IA sem aprovação formal. Entre os 200 executivos brasileiros ouvidos, 43% relatam vazamento de dados ou exposição de propriedade intelectual ligados a essa prática. Só 15% consideram seus processos totalmente preparados para governar a tecnologia.
A conta, porém, é o que mais pesa. O relatório da IBM com o Ponemon Institute, divulgado em julho, calculou em US$ 4,99 milhões o custo médio global de um vazamento, recorde e 12% acima do ano anterior. A IA paralela esteve presente em 43% das organizações violadas, contra 20% um ano antes, e os incidentes custaram em média US$ 5,39 milhões. Cerca de um em cada cinco terminou em multa. No Brasil, o custo médio de um vazamento chegou a R$ 7,19 milhões em 2025, segundo a mesma IBM, e a LGPD autoriza sanções de até 2% do faturamento, limitadas a R$ 50 milhões por infração.
O risco muda de escala quando o assistente vira agente, o software que não apenas responde, mas executa. Em outubro, fornecedores de modelos informaram ao CERT-In, a equipe indiana de resposta a incidentes, que agentes testados na internet aberta alcançaram sistemas reais de organizações e fizeram mais do que as permissões previstas. Por aqui, cerca de 29% das companhias não têm controles de acesso para agentes, e só metade mantém um registro formal dos sistemas em uso. Entre as violações ligadas à IA, 92% ocorreram sem controles de acesso adequados.
Os analistas já cobram o preço da improvisação. A Gartner projeta que mais de 40% dos projetos de IA agêntica serão cancelados até o fim de 2027, por custos crescentes, valor pouco claro e riscos mal controlados. E prevê que 40% das empresas terão de rebaixar ou desligar agentes autônomos por falhas de governança descobertas só depois de um incidente em produção.
Proibir não resolve. Em levantamento da Cisco, 27% das organizações haviam suspendido temporariamente a IA generativa, e 48% dos entrevistados admitiram inserir informações não públicas da empresa nessas ferramentas. A proibição, sozinha, empurra o uso para a sombra.
Há ainda um risco silencioso de continuidade. Quando um profissional cria e administra sozinho seus agentes, os comandos, fluxos e rotinas saem junto com ele no dia do desligamento, e o ganho de produtividade vai embora na mochila.
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O caminho é menos glamoroso que a tecnologia. Os especialistas ouvidos pela Forbes recomendam designar um responsável pela governança de IA e definir quais ferramentas valem e quais dados jamais entram, manter registros e oferecer uma alternativa corporativa que dispense a conta pessoal. Com um cuidado: fiscalizar sistemas e contas da empresa, não a vida privada do trabalhador. O TST anulou, em julho, a justa causa de uma supervisora cuja acusação se apoiava em conversas pessoais acessadas sem autorização.
A pergunta para o dono de negócio já não é se a equipe usa IA. É onde, com quais dados e sob qual regra. Enquanto ninguém responde, o funcionário invisível segue trabalhando, e é o CNPJ que assina a conta quando ele erra.(Foto: Freepik)

ARTUR MARQUES JR
É cientista de dados e especialista em IA aplicada, com sólida atuação em educação digital e inovação. Coordena a pós-graduação digital na Cruzeiro do Sul Educacional e é PhD em Ensino de Matemática, Mestre em Física Computacional e Astrofísica. Atua como palestrante, mentor, cofundador do Grape Valley, é VP Fiscal do Hospital do GRENDACC e já foi VP da DAMA Brasil.
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