Hoje não trouxe café. Para esta conversa, talvez seja melhor comprar um ingresso e um pacote de pipoca. Há uma curiosa construção social que raramente é tratada como aquilo que de fato é: uma engenharia cultural profundamente rígida. Ela atende pelo nome de masculinidade tradicional. Mas, olhando com um pouco mais de atenção, talvez uma metáfora seja mais honesta: um zoológico comportamental. Nesse zoológico, homens não são criados para existir em liberdade emocional ou relacional. São treinados para habitar jaulas simbólicas muito específicas, e cada uma delas define como um homem “de verdade” deve agir, sentir e se relacionar com o mundo.
A primeira jaula é a da força permanente. Nela, homens aprendem desde cedo que fraqueza é quase um crime de identidade. Chorar, demonstrar medo, pedir ajuda ou expressar vulnerabilidade são atitudes rapidamente corrigidas pela pedagogia social da vergonha. O menino que cai e chora escuta: “engole o choro, isso não é coisa de homem”. Curiosamente, a mesma sociedade que proíbe homens de acessar suas emoções costuma se surpreender quando esses mesmos homens apresentam dificuldades para lidar com frustração, rejeição ou perda de controle. É quase como proibir alguém de aprender a nadar e depois se espantar quando ele se afoga.
Outra jaula bastante popular é a do domínio. Durante séculos, a organização social patriarcal atribuiu aos homens o papel de liderança no espaço público e privado. O próprio direito brasileiro demorou bastante para abandonar formalmente essa lógica. O Código Civil de 1916, por exemplo, estabelecia o marido como “chefe da sociedade conjugal”, posição jurídica que lhe conferia prerrogativas concretas sobre a vida familiar. A legislação mudou, felizmente. A cultura, porém, costuma caminhar mais devagar. Mesmo depois de reformas legais importantes, muitos homens continuam sendo socializados para acreditar que autoridade masculina é algo natural, quase biológico. E quando mulheres passam a ocupar espaços de poder, no trabalho, na política ou dentro de casa, parte da sociedade reage como se estivesse diante de uma ruptura da ordem natural das coisas, como se uma espécie rara tivesse escapado da jaula.
Existe também a jaula do provedor absoluto. Nesse espaço simbólico, o valor masculino é medido pela capacidade de sustentar financeiramente uma família. Não por acaso, a perda desse lugar pode produzir crises identitárias profundas em homens socializados dentro dessa lógica. Quando o papel de provedor entra em colapso, muitos não encontram outras referências possíveis de masculinidade. Afinal, ninguém lhes ensinou que cuidado, parceria, afeto e corresponsabilidade também podem ser formas legítimas de existir como homem.
Acontece que zoológicos têm um efeito curioso: aprisionam quem está dentro, mas também educam o olhar de quem está do lado de fora. Mulheres, historicamente confinadas a papéis de submissão e cuidado obrigatório, pagaram e continuam pagando um preço altíssimo por esse sistema. Violência doméstica, desigualdade econômica, exclusão dos espaços de poder e sobrecarga emocional não surgiram por acaso. São produtos bastante previsíveis de uma estrutura social que concentrou poder masculino durante séculos. Mas homens também pagam um preço, ainda que esse custo raramente seja reconhecido como consequência do próprio modelo que lhes prometeu poder. Sofrimento psíquico silenciado, dificuldade de expressão emocional, maior exposição a comportamentos de risco e relações afetivas atravessadas pela incapacidade de demonstrar vulnerabilidade são alguns dos sintomas dessa engenharia social.
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O problema é que sistemas culturais raramente admitem que são sistemas. Preferem se apresentar como tradição, natureza ou destino. E assim seguimos visitando o zoológico da masculinidade como se ele fosse uma paisagem inevitável da vida social. A pergunta incômoda é outra: quem construiu essas jaulas e por que ainda insistimos em conservá-las? Uma sociedade que aprisiona homens em modelos rígidos de poder, domínio e invulnerabilidade acaba ajudando a produzir exatamente aquilo que depois diz temer: relações violentas, afetos frágeis e uma convivência permanentemente tensionada.
Fechar o zoológico não significa abolir masculinidades. Significa permitir que elas existam fora das grades. A pipoca acabou, o ingresso já perdeu a validade e o espetáculo dura há séculos. Talvez o problema seja justamente esse: nos acostumamos tanto com as jaulas que começamos a chamá-las de natureza. Está mais do que na hora de abrir as grades. E, desta vez, não haverá próxima sessão.

ANDRÉIA MELO
É guarda municipal há 14 anos, especialista em atendimento humanizado às mulheres em situação de violência. Idealizadora e presidente da Casa de Alices – Centro de Atendimento e Acolhimento à Mulher. Atuou como vice-presidente do CAIS Jundiaí. Idealizadora do Programa Guardiã Maria da Penha onde atuou como coordenadora por 2 anos, instrutora na formação de profissionais da segurança pública em violência de gênero e direitos humanos, unindo experiência prática e reflexão jurídica no enfrentamento das desigualdades estruturais. E-mail: [email protected]. Telefone: 11 975559986. Conheça a Casa de Alices clicando aqui.
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