Falar sobre saúde mental no trabalho já não significa apenas discutir prevenção ao Burnout ou oferecer apoio psicológico aos colaboradores. O tema ganhou novas dimensões: envolve a forma como o trabalho é organizado, como as pessoas são lideradas, como lidamos com o tempo, a atenção, os conflitos, os erros e, principalmente, como construímos relações. Essa foi uma das principais mensagens que atravessaram o Mind Summit 2026, realizado nos dias 16 e 17 deste mês, em São Paulo, reunindo pesquisadores, professores e profissionais nacionais e internacionais para discutir saúde mental, neurociência, psicologia positiva, bem-estar, felicidade corporativa e os desafios do mundo do trabalho.
Uma das falas mais aguardadas neste Mind Summit foi a de Christina Maslach, pioneira mundial nos estudos sobre Burnout. A pesquisadora reforçou uma mudança importante de perspectiva: Burnout não pode ser compreendido apenas como um problema individual. Ele também revela a relação entre as pessoas e as condições em que o trabalho acontece. “O Burnout não define quem você é, ele sinaliza que algo precisa mudar”.

Exaustão, cinismo e sensação de ineficácia estão entre as dimensões associadas ao Burnout. Por isso, quando uma organização fala em saúde mental, a pergunta não deveria ser apenas “como ajudar quem está adoecendo?”, mas também: “O que, na forma como estamos trabalhando, pode estar contribuindo para esse adoecimento?”
Carga de trabalho, autonomia, reconhecimento, relações, justiça, valores e segurança psicológica fazem parte dessa conversa. É uma mudança significativa: cuidar da saúde mental não é somente oferecer recursos para que as pessoas suportem melhor o trabalho, é também olhar para o próprio trabalho.
Outro ponto de destaque veio da discussão sobre segurança psicológica e “falhas inteligentes”, tema associado ao trabalho de Amy Edmondson(foto principal). Uma organização pode dizer que valoriza inovação, colaboração e transparência. Mas a verdadeira cultura aparece em momentos mais difíceis.
A ideia de “falha inteligente” ajuda a separar o erro que poderia ter sido evitado daquele que acontece em um território novo, dentro de uma experiência pequena e controlada, capaz de gerar aprendizado. A provocação para as lideranças é direta: não basta permitir o erro. É preciso criar condições para que o erro produza aprendizagem. E isso exige ambientes nos quais as pessoas possam falar antes que um pequeno problema se transforme em um grande desastre. “Quando há um gap entre o que você pensa e o que você diz, não tem segurança psicológica”, ressaltou Amy neste Mind Summit.
Uma das provocações que mais chamaram sobre atenção sobre Liderança veio de Alana Anijar, da Psicologia na Prática: em um cenário no qual líderes são frequentemente chamados a resolver problemas, acolher pessoas e sustentar resultados, existe um risco pouco discutido: assumir responsabilidades que não pertencem a eles. Uma frase sintetiza bem essa reflexão: “Nem todo problema que chega até você pertence a você.”
Conforme Alana explicou no Mind Summit, a empatia não significa absorver tudo. E estabelecer limites não significa deixar de se importar. A combinação entre empatia e responsabilidade aparece, nesse contexto, como uma competência importante para uma liderança mais madura emocionalmente. Porque liderar sob pressão não significa agir imediatamente diante de tudo o que provoca desconforto. Às vezes, maturidade é conseguir fazer uma pausa, compreender o que está acontecendo e só então decidir como agir.
O tempo também faz parte da conversa sobre saúde mental, uma das reflexões mais humanas do evento tenha vindo de Ana Claudia Quintana Arantes, o lembrar que uma vida de 80 anos corresponde a pouco mais de quatro mil semanas, ela colocou o tempo no centro da discussão.
No ambiente corporativo, é comum transformar tudo em urgência. Mas enquanto o urgente grita, o importante, muitas vezes, espera, até que uma hora cansa. A provocação ultrapassa a gestão do tempo. Quanto da vida está sendo colocado no trabalho? E quanto daquilo que realmente importa está sendo adiado? Outra reflexão merece atenção: presença não é o mesmo que disponibilidade. Estar disponível para todos o tempo todo pode significar, paradoxalmente, não estar verdadeiramente presente para ninguém. Quando se fala em futuro do trabalho, talvez seja preciso incluir também essa dimensão: qual futuro queremos construir se não conseguirmos estar presentes na vida que estamos vivendo hoje?
As discussões sobre neurociência neste Mind Summit também trouxeram outro alerta: não é possível falar de produtividade ignorando a forma como o cérebro funciona. Excesso de estímulos, interrupções constantes, reuniões sucessivas e a necessidade de responder imediatamente a tudo fragmentam a atenção e dificultam atividades que exigem concentração, planejamento, tomada de decisão e criatividade. A questão, portanto, não é simplesmente trabalhar mais ou trabalhar menos. É perguntar: “Estamos organizando o trabalho de uma maneira compatível com a capacidade humana de prestar atenção, pensar e recuperar energia?”. Provavelmente uma das mudanças mais necessárias seja deixar de medir produtividade apenas pelo tempo que alguém permanece ocupado e começar a olhar para a qualidade das entregas, do foco e das relações que tornam essas entregas possíveis.
Outro tema presente no Mind Summit foi a felicidade no trabalho, a principal provocação seja justamente não transformar felicidade corporativa em mais uma iniciativa isolada no calendário da empresa. Conexão, contribuição e competência foram apresentadas como elementos importantes para a experiência de emoções positivas.
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Na prática, isso significa que pessoas precisam sentir que pertencem, que contribuem para algo que importa e que possuem recursos e condições para realizar bem o seu trabalho. Não se trata de criar uma empresa onde todos estejam felizes o tempo inteiro. Trata-se de construir um ambiente no qual exista espaço para relações de qualidade, significado, desenvolvimento, reconhecimento e para os dias difíceis.
Depois de dois dias de conteúdos sobre cérebro, emoções, burnout, liderança, produtividade, tecnologia, felicidade e relações, talvez o principal insight do Mind Summit seja justamente este: o futuro do trabalho será definido também pela maneira como escolheremos trabalhar com pessoas.
A tecnologia pode acelerar processos, a ciência pode ampliar nossa compreensão e novas metodologias podem transformar a gestão, mas nenhuma delas substitui a necessidade de construir ambientes nos quais as pessoas possam trabalhar, aprender, discordar, descansar, contribuir e encontrar sentido.
E para finalizar, um recado do professor e diretor do Wellbeing Research Centre, da Universidade de Oxford, Jan-Emmanuel De Neve, que também participou do Mind Summit deste ano: “O bem-estar das pessoas é uma estratégia para melhores resultados”.

DANY MORAES
Consultora de Projetos de Recursos Humanos e Educação Corporativa. Atua na área de Gente & Gestão há 20 anos, com especializações em Felicidade e Qualidade de Vida no Trabalho, Inteligência Emocional e Líder Coach. Contatos: E-mail: [email protected]. Instagram: @soudanymoraes. LinkedIn: daniela-moraes-marques.WhatsApp: 11 982659384. Acesse também: @sejaexpandente(Foto ao lado: Tris Nogueira – Foto principal: Vlada Karpovich/Pexels)
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Gente e Gestão é uma expressão que se refere ao conjunto de práticas, políticas e processos relacionados à gestão de pessoas dentro de uma organização, engloba todas as atividades e estratégias voltadas para o desenvolvimento, motivação, engajamento e bem-estar dos colaboradores de uma empresa.
Isso inclui recrutamento, seleção, treinamento, desenvolvimento de carreira, avaliação de desempenho, remuneração, benefícios, comunicação interna, cultura organizacional, entre outros aspectos que impactam diretamente o capital humano e o ambiente de trabalho.
A expressão Gente e Gestão enfatiza a importância das pessoas como um dos principais ativos de uma organização e reconhece que uma gestão eficaz dos recursos humanos é fundamental para o sucesso e sustentabilidade do negócio.
E também ressalta a necessidade de uma abordagem humanizada e centrada nas pessoas na condução das atividades relacionadas à gestão de talentos dentro da empresa e a produtividade sustentável.
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