Outro dia, alguém disse que estava velho demais para começar. Não era uma pessoa particularmente velha. Na verdade, nem sei exatamente quantos anos tinha. E talvez isso pouco importe. O que me chamou a atenção foi a naturalidade com que pronunciou a frase, como se houvesse uma idade estabelecida para começar e outra, igualmente determinada, para desistir. Como se a vida tivesse um calendário secreto no qual estivesse escrito: até aqui você pode desejar; depois daqui, comporte-se.
Fiquei pensando em quantas vezes fazemos isso uns com os outros. Perguntamos a idade antes de perguntar sobre os sonhos. Observamos os cabelos antes de conhecer as histórias. Calculamos os anos antes de considerar as possibilidades. E, silenciosamente, vamos distribuindo permissões sociais: você ainda pode; você já não deveria; você está muito novo; você está velho demais.
A modernidade, tão orgulhosa de suas conquistas, parece ter criado uma relação curiosa com o tempo. Queremos viver mais, mas não queremos parecer mais velhos. Celebramos o aumento da expectativa de vida, mas continuamos vendendo juventude como sinônimo de beleza, competência, desejo e possibilidade. Desenvolvemos tecnologias para prolongar a existência enquanto, contraditoriamente, criamos uma cultura que frequentemente trata o envelhecimento como perda de relevância.
Talvez este seja um dos paradoxos mais incômodos do nosso tempo: conseguimos acrescentar anos à vida, ter mais idade, mas ainda estamos aprendendo a acrescentar dignidade, participação e sentido aos anos conquistados. A modernidade é rápida. Tudo precisa ser atualizado. O telefone, o computador, o aplicativo, a linguagem, o conhecimento, a aparência, o currículo, as competências. O novo chega antes que tenhamos compreendido inteiramente aquilo que acabou de chegar. E aquilo que ontem parecia indispensável hoje recebe uma palavra quase ofensiva: ultrapassado.
O problema começa quando transferimos a lógica dos objetos para as pessoas. Pessoas não possuem versão 2.0. Não deveriam ser descartadas porque uma geração mais nova chegou, nem classificadas como obsoletas porque aprenderam a fazer determinadas coisas de outra maneira. Uma pessoa de 70 anos não é uma versão antiga de uma pessoa de 30. É alguém que percorreu 70 anos de desenvolvimento humano, acumulando experiências, perdas, reconstruções, vínculos, conhecimentos, erros, afetos e transformações que não cabem numa comparação tecnológica.
Ainda assim, o etarismo encontra terreno fértil numa sociedade fascinada pela novidade. Ele aparece nas grandes violências, certamente, mas também se esconde nas pequenas frases. “Você ainda trabalha?”. “Vai viajar sozinho nessa idade?”. “Para que aprender isso agora?”. “Isso é coisa de jovem”. “Você está muito velho para começar”. Algumas dessas frases são pronunciadas com sorriso, outras com aparente preocupação e muitas até com afeto. Mas nem toda forma de controle deixa de ser controle porque vem acompanhada de boas intenções. Há cuidados que protegem. E há cuidados que aprisionam. Talvez uma das tarefas mais delicadas das relações humanas seja aprender a diferença entre ambos.
Quando somos crianças, adultos decidem por nós porque ainda estamos construindo condições para compreender determinados riscos e consequências. Conforme crescemos, conquistamos autonomia e ampliamos nossa participação nas decisões sobre a própria vida. Entretanto, existe algo estranho acontecendo em muitas relações familiares: depois de certa idade, algumas pessoas começam a percorrer o caminho inverso. Primeiro perguntam ao idoso o que ele deseja. Depois começam a sugerir o que seria melhor. Mais tarde passam a decidir por ele. Até que, em algum momento, alguém percebe que aquela pessoa continua presente nas reuniões familiares, mas já não participa verdadeiramente das decisões que dizem respeito à sua própria existência.
Escolhem onde ela deve morar, quando deve sair, com quem deve viajar, o que pode comprar, quais atividades deveria abandonar. Tudo em nome da proteção. E talvez ninguém tenha perguntado: “É assim que você quer viver?” Essa pergunta simples contém uma enorme demonstração de respeito. Porque envelhecer não significa deixar de desejar.
Também não significa perder automaticamente a capacidade de decidir, amar, aprender, criar, trabalhar, produzir, ensinar, experimentar ou transformar-se. Certamente o corpo muda. Algumas habilidades podem diminuir, outras necessitam de adaptações e determinadas limitações tornam-se reais. Negá-las seria tão desrespeitoso quanto exagerá-las.
Mas desenvolvimento humano nunca significou permanecer igual. Mudamos desde que nascemos. A criança perde determinadas características para adquirir outras. O adolescente abandona algumas formas de relação com o mundo para construir novas. O adulto também reorganiza prioridades, afetos e projetos. Por que, então, exigiríamos que apenas o envelhecimento fosse compreendido exclusivamente como perda?
Talvez porque ainda tenhamos dificuldade para olhar o desenvolvimento humano como um processo que acontece durante toda a existência. A pessoa idosa continua se desenvolvendo. Continua aprendendo. Continua revendo suas histórias. Continua produzindo significados. Continua reorganizando relações. Continua tornando-se alguém. E, curiosamente, a modernidade tornou essa questão ainda mais interessante. Nunca diferentes gerações conviveram simultaneamente com tantas possibilidades de interação. Avós acompanham netos por mensagens instantâneas. Famílias separadas por milhares de quilômetros conversam olhando umas para as outras através de pequenas telas. Pessoas que cresceram escrevendo cartas hoje enviam fotografias em segundos.
Não deixa de ser extraordinário. Mas a tecnologia que aproxima também pode produzir novas formas de exclusão. Basta observar a impaciência com que, algumas vezes, alguém mais jovem ensina uma pessoa idosa a utilizar um aplicativo. “É só apertar aqui”. “Eu já expliquei”. “Não é possível que você não entenda”. Talvez seja possível. Talvez aquilo que parece intuitivo para quem cresceu tocando telas seja absolutamente novo para quem aprendeu a viver num mundo analógico. E isso não revela menor inteligência. Revela apenas trajetórias diferentes. Curiosamente, raramente pensamos no movimento contrário.
Quantas coisas uma geração anterior precisou ensinar às gerações seguintes repetidas vezes? Quantas perguntas infantis foram respondidas 10, 20, 50 vezes? Quantos cadarços foram amarrados até que pequenas mãos aprendessem? Quantas palavras foram repetidas? Quantos caminhos foram mostrados? Quantos medos foram acolhidos? Talvez a convivência entre gerações precise recuperar uma antiga virtude: a paciência. Não aquela paciência condescendente de quem se considera superior, mas a paciência generosa de quem reconhece que todo encontro humano reúne pessoas que sabem algumas coisas e desconhecem muitas outras. É justamente aí que as relações interpessoais podem tornar-se um dos espaços mais importantes de enfrentamento ao etarismo.
Quando gerações conversam verdadeiramente, os estereótipos começam a perder força. O jovem deixa de representar apenas a pressa, a irresponsabilidade ou a superficialidade. O idoso deixa de representar apenas lentidão, fragilidade ou resistência à mudança. Aparecem pessoas. E pessoas são sempre mais complexas do que as categorias nas quais tentamos colocá-las. Há jovens conservadores e idosos revolucionários. Há adolescentes prudentes e adultos impulsivos. Há pessoas de oitenta anos curiosas diante das novidades e pessoas de trinta absolutamente resistentes a qualquer transformação. A idade nos atravessa, evidentemente, mas não explica sozinha quem somos.
Talvez um dos maiores equívocos do etarismo seja justamente acreditar que a data de nascimento consegue resumir uma biografia. Não consegue. Há uma história inteira entre o nascimento e a idade atual. Existem amores que deram certo e outros que deixaram cicatrizes. Existem trabalhos realizados, sonhos adiados, filhos criados ou não desejados, cidades abandonadas, casas construídas, amizades perdidas e reencontradas. Há conquistas das quais ninguém sabe e dores sobre as quais talvez nunca se tenha falado.
Cada pessoa que envelhece carrega consigo uma biblioteca invisível. O problema é que estamos vivendo numa sociedade que, às vezes, prefere consultar rapidamente um mecanismo de busca a sentar-se durante uma hora para ouvir uma história. Talvez tenhamos ganhado velocidade e perdido alguma disponibilidade. Sabemos instantaneamente o que acontece do outro lado do planeta, mas podemos desconhecer aquilo que preocupa a pessoa sentada ao nosso lado. Temos centenas de contatos e poucas conversas demoradas. Respondemos mensagens enquanto conversamos presencialmente. Olhamos para telas enquanto alguém nos olha. A modernidade conectou aparelhos com uma eficiência extraordinária. Agora precisamos descobrir se conseguiremos fazer o mesmo com as pessoas.
Nesse cenário, o envelhecimento talvez tenha algo importante a ensinar. Ele nos lembra que o tempo existe. Que nem tudo precisa ser acelerado. Que algumas relações precisam de repetição. Que intimidade exige convivência. Que confiança não se baixa por aplicativo. Que determinadas respostas precisam amadurecer antes de serem pronunciadas. E que nenhuma tecnologia conseguiu ainda substituir completamente aquilo que acontece quando duas pessoas decidem prestar atenção uma à outra. Talvez combater o etarismo comece justamente aí: recuperando a capacidade de olhar. Olhar para uma pessoa sem transformá-la imediatamente numa idade. Olhar para um corpo envelhecido sem reduzi-lo às suas limitações. Olhar para alguém mais jovem sem desqualificá-lo por sua pouca experiência.
Porque o etarismo também pode caminhar na direção contrária. Jovens podem ser considerados incapazes simplesmente porque são jovens. Suas opiniões são minimizadas, suas competências colocadas sob suspeita e seus sentimentos tratados como imaturidade.
Toda vez que a idade substitui o conhecimento da pessoa, alguma injustiça se aproxima. O desenvolvimento humano não deveria ser uma competição entre gerações. Não precisamos decidir qual geração foi melhor. Aquela que escrevia cartas ou aquela que envia mensagens instantâneas. A que brincava na rua ou a que habita ambientes digitais. A que permaneceu décadas no mesmo emprego ou aquela que considera natural mudar várias vezes de carreira. Cada geração responde às condições históricas que encontrou. Talvez a riqueza esteja justamente na possibilidade de encontro entre essas experiências.
O jovem pode oferecer ao mais velho caminhos que ainda não foram percorridos. O mais velho pode oferecer ao jovem memórias de caminhos que não deveriam precisar ser percorridos novamente. Um apresenta possibilidades. O outro oferece perspectiva. E ambos podem aprender. Mas isso exige abandonar a arrogância cronológica — aquela estranha certeza de que nossa geração descobriu a maneira correta de viver. Nenhuma descobriu. Todas acertaram algumas coisas e erraram outras. Somos apenas diferentes viajantes ocupando, durante algum tempo, trechos distintos da mesma estrada.
Quem hoje ajuda alguém a caminhar talvez amanhã precise de um braço. Quem hoje ensina a utilizar uma tecnologia amanhã poderá precisar que alguém lhe explique outra. Quem hoje reclama da lentidão de uma pessoa idosa talvez descubra, décadas depois, que o mundo passou a correr numa velocidade que também já não consegue acompanhar. Talvez por isso o respeito entre gerações seja mais do que uma questão de educação. É uma forma de consciência sobre a própria condição humana. Envelhecer, afinal, não é uma experiência reservada aos outros. Quando tudo corre bem, é justamente aquilo que acontecerá conosco. E talvez chegue um dia em que alguém olhe para nós e enxergue apenas nossos anos.
Espero que nesse dia exista outra pessoa por perto capaz de olhar um pouco mais demoradamente. Que enxergue aquilo que ainda desejamos. Que pergunte nossa opinião. Que escute nossas histórias sem tratá-las como repetições inconvenientes. Que nos ajude quando precisarmos, mas não transforme ajuda em tutela. Que compreenda nossas limitações sem fazer delas nossa identidade.
E, sobretudo, que não decida antecipadamente que nosso tempo terminou apenas porque nosso tempo passou. Porque o tempo passa para todos. Mas passar não significa desaparecer. Talvez o verdadeiro avanço de uma sociedade não possa ser medido apenas pela velocidade de suas tecnologias, pela modernidade de seus edifícios ou pela quantidade de anos que conseguiu acrescentar à expectativa de vida.
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Talvez uma sociedade seja verdadeiramente moderna quando aprende a permitir que diferentes idades existam com igual dignidade. Quando uma criança pode perguntar. Quando um jovem pode experimentar. Quando um adulto pode reconstruir. Quando uma pessoa idosa pode continuar escolhendo. E quando todos podem sentar-se à mesma mesa sem que ninguém precise pedir desculpas pela idade que tem. Nesse dia, talvez compreendamos algo muito simples que a pressa da modernidade quase nos fez esquecer: não existem pessoas ultrapassadas.
Existem pessoas atravessadas pelo tempo. E talvez seja justamente o tempo — com suas marcas, aprendizagens, perdas, recomeços e encontros — aquilo que torna cada uma delas absolutamente impossível de substituir.(Foto: Javid Hashimov/Pexels)

AFONSO ANTÔNIO MACHADO
É docente e coordenador do LEPESPE, Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte, da UNESP. Leciona na Faculdade de Psicologia UNIANCHIETA. Mestre e Doutor pela UNICAMP, livre docente em Psicologia do Esporte, pela UNESP, graduado em Psicologia, editor chefe do Brazilian Journal of Sport Psychology.
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