Há 21 anos, um grupo de profissionais deixou de receber o que lhes era devido após trabalhar no Jornal da Cidade(JC). Desde então, percorrem corredores da Justiça à espera de uma decisão que nunca se concretiza. Trabalharam por anos com jornadas acima do limite legal, sem recolhimento de FGTS, férias, 13º salário e verbas rescisórias. Em 2005, já no declínio do veículo de comunicação, ajuizaram ações na Justiça do Trabalho reivindicando o que a lei lhes garantia.
A Justiça tarda e não chega – “Trabalhei seis anos na empresa, atuando em várias editorias, muitas vezes com dupla função”, desabafa o jornalista Marcos Nascimento. A revolta é comum a todos. “Fui demitido por justa causa — depois revertida pela Justiça — e o pior é esperar duas décadas por um direito que se arrasta por lentidão e burocracia”, completa Nascimento.
Os processos já passaram por três varas diferentes. Advogados e juízes se sucederam. Recursos foram interpostos e retornaram à origem. A empresa alegou insolvência e chegou a mudar de razão social. Hoje, os valores devidos, já corrigidos, somam centenas de milhares de reais.
Indignação – A morosidade causou danos irreversíveis. Muitos dos ex-funcionários já passaram dos 60 anos. Outros faleceram sem ver o processo encerrado. Viveram anos de aperto financeiro. A espera corroeu economias, saúde e esperança.
“Mesmo com meus direitos reconhecidos pelo Judiciário, continuo esperando o cumprimento da decisão e o pagamento do que me devem. Isso gera indignação e um profundo sentimento de injustiça”, lamenta Tiago Pauletti, que trabalhou sete anos na empresa.
Casos como este revelam uma falha estrutural: processos trabalhistas com sucessivos recursos e mudanças de identidade da empresa podem se arrastar por décadas. A demora, por si só, torna a justiça inacessível.
“Trabalhei no JC de 1996 a 2013 e nunca tiveram meus depósitos de FGTS feitos. A frustração foi imensa ao descobrir que simplesmente não teria meus direitos garantidos”, afirma José Aparecido dos Santos, o Zezinho.
JJ NA JUSTIÇA DO TRABALHO:
“PERDI UM APARTAMENTO E DEIXEI DE FAZER TRATAMENTO DE SAÚDE”, DIZ ISABEL BUENO
“SEM RECEBER MEUS DIREITOS, SENSAÇÃO DE IMPUNIDADE AUMENTA”, AFIRMA ANDRÉ
“RUI: NÃO RECEBI O QUE É MEU E PRECISEI DA AJUDA DE PARENTES”
GERALDO DIAS NETTO: “MINHA DÍVIDA NÃO É PAGA MESMO COM DOIS IMÓVEIS LOCALIZADOS”
ODILIES MORO, 80 ANOS, PROCESSOU E TAMBÉM NÃO RECEBEU: “QUANTOS VÃO MORRER ESPERANDO”?
“Até quando vamos esperar?”, perguntam os que ainda resistem. A Constituição garante a todos a razoável duração do processo. Mas para estes profissionais, esse direito segue sendo uma promessa distante.
Zezinho buscou apoio no sindicato e participou de audiências no Ministério Público do Trabalho por um ano. “Faziam acordos e não cumpriam. Até que em dezembro de 2013 pedi a rescisão por justa causa contra eles. Meu processo se juntou aos demais há três anos”, conta.
A busca por bens para quitar a dívida segue — entre eles, um prédio na rua Vigário João José Rodrigues e um sítio no bairro Terra Nova. Duzentos e cinquenta e dois meses de trabalho, luta e de espera. E o que resta é a certeza de que a justiça não é apenas uma decisão escrita em papel: é o cumprimento dela em vida.
Enquanto o sistema arrasta os pés, ex-funcionários do JC carregam consigo, muitos até o último dia, a marca de um direito que nunca chegou. A pergunta permanece: quando a Justiça finalmente fará valer o que a lei já lhes garantiu há 21 anos?(Texto: Róbson de Moura/Foto: professor Maurício Ferreira)
O Jornal Jundiaí Agora entrou em contato com a assessoria de comunicação do Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região(TRT-15). A resposta sobre a situação dos ex-funcionários do JC que aguardam há 21 anos uma resposta da Justiça foi a seguinte: “O TRT-15 não se pronuncia sobre processos judiciais em andamento”.
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