JJ na Justiça do Trabalho: A angústia e humilhação dos ex-funcionários e famílias

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Há quase 10 anos dei entrada numa ação trabalhista contra o Jornal de Jundiaí(JJ), onde entre idas e vindas, atuei como jornalista por cerca de 30 anos. E desde então só faço esperar, assim como dezenas e dezenas de ex-colegas que estão com seus processos sem um final feliz. Hoje, aos 59 anos, percebo que me preocupei demais com a empresa, da qual sempre ‘vesti a camisa’, como mandavam os patrões. Penso que a maioria dos que ali trabalharam fez o mesmo não por causa do mantra que era repetido lá no topo da hierarquia. Vestíamos a camisa por causa dos colegas, do ambiente, da atmosfera, da atividade em si, do cheiro do papel e da tinta rodando na máquina monstruosa. Fazer jornal é uma delícia. Ou era. Agora, com sérios problemas de saúde, vejo que a recíproca não foi verdadeira. Em todas as funções que ocupei dentro do Grupo JJ fui correto, um bom profissional, com credibilidade, coisa fundamental para qualquer jornalista e para a empresa para qual ele trabalha. Mas, o que vivi quando cheguei ao ponto máximo da carreira – ser editor-chefe – foi humilhante. Este é o mesmo sentimento que tenho em relação à ação que reivindica todos os meus direitos que ainda não foram pagos. O processo tem o número 0010518-20.2017.5.15.0096 e corre pela 3ª Vara do Trabalho de Jundiaí.

Comecei no JJ como repórter, no final da década de 1980. Depois veio a chefia de reportagem, no início dos anos 2000. A coordenação de jornalismo da Rádio Difusora foi meu terceiro cargo de liderança no grupo. Aí veio a pejotização sob o pretexto de “ajudar a empresa” e depois voltei, contra a vontade, ao JJ para coordenar as mídias sociais e site. Por último, foi imposto que eu me tornaria editor-chefe com a promessa de discutir aumento do valor do pagamento somente no ano seguinte. E foi a partir daí que os funcionários do Jornal de Jundiaí passaram a conviver com os atrasos de salário. Primeiro foram os PJs. Depois, os CLTs. Era comum ver grupos de funcionários reunidos pelos corredores, chorando, desesperados, sem dinheiro para as contas atrasadas ou para comprar comida. Enquanto isso, o Sindicato dos Jornalistas denunciava, em 2 de novembro de 2016, que “um dos sócios proprietários do jornal passou o Carnaval numa das cidades turísticas mais caras do Estado de São Paulo, em Campos do Jordão, passeando de motocicleta Harley-Davidson e se deliciando de uma suculenta picanha”(print abaixo ou clique aqui). A justificativa que lembro ter ouvido do outro sócio para a famigerada viagem: “ele precisava descansar, estava muito estressado”. Chegou o final do ano. Mas, o pagamento do 13º não chegou. E algum jornalista fez a denúncia ao Sindicato, o que é direito dos profissionais. Também me recordo que ao ser pressionado pelos sindicalistas, um dos donos me chamou e deu a ordem que beirava a falta de cognição: “você tem de proibir o pessoal da redação de telefonar para o Sindicato”.

Lembro de ter ficado pelo menos três meses sem ser pago, mas trabalhando e recebendo cobranças e mais cobranças de manhã, tarde e noite. Afinal eu era o editor-chefe! As exigências eram feitas, uma atrás da outra, como se eu estivesse recebendo normalmente e com o acréscimo do aumento prometido. Depois de reclamar muito, passaram a me dar alguns trocados semanalmente. Até que o dinheirinho não veio e fui até a secretária de um dos sócios. Era uma sexta-feira à noite. Na segunda, o sócio me chamou e questionou minha conduta. Falou que eu jamais deveria ter falado com a secretária dele sobre dinheiro e que iria tomar providências contra mim. Comecei a rir e ele não entendeu o motivo. Tive de explicar, quase desenhar para ele, que se alguém ali deveria estar irritado era eu e todos os outros funcionários que não recebiam seus salários em dia. A discussão ultrapassou o ‘aquário’ dele, feito de madeira compensada e vidro. Foi ouvida pelos colegas do departamento comercial e TI que posteriormente me cumprimentaram pelo que disse. Foi nesse momento que tive a certeza de que todas as conversas informais e até reuniões nas quais nós, funcionários, éramos estimulados a acreditar na empresa e continuar trabalhando por ela, não passavam de balela. Acertei minha saída.

Quase uma década depois dói ver o estado da antiga sede do JJ na rua Baronesa do Japi, 53. Delapidado, o imóvel é hoje só um esqueleto de concreto, tijolos e reboco. Creio que não custa mais os R$ 4,2 milhões conforme avaliação feita em 2016. E dói saber que parte do valor deste prédio, que está em inventário, é dos ex-funcionários. Assim como o terreno onde fica a antena da Rádio Difusora, no Caxambu, avaliado em R$ 3,4 milhões em 2024. Este dinheiro também é de quem trabalhou no Grupo JJ e não recebeu seus direitos. A ironia que eu e tantos ex-funcionários vivemos é que diferentemente de outros processos, apresentamos dois bens à Justiça do Trabalho. É verdade que o imóvel da Baronesa está sendo anunciado no site de uma imobiliária. Também é verdade que o terreno da rádio foi a leilão. Mas não surgiram interessados, o que talvez indique que os valores propostos pelos peritos não condizem mais com a realidade atual e novas avaliações deveriam ser feitas levando-se em consideração também a urgência da venda. Além disso, o JJ e a Difusora continuam existindo. E se existem é porque faturam, vendem espaço publicitário ou até jornalístico(a conhecida ‘matéria paga’). Parte deste dinheiro seria, em tese, uma forma de pagar quem trabalhou e não recebeu. Contudo, até onde é sabido, não se consegue descobrir quanto as duas empresas arrecadam.

Quem buscou a Justiça do Trabalho caminha para a velhice. Eu, por exemplo. No próximo ano serei oficialmente um idoso. Mas as dores chegaram muito antes. Sofro com estenose na coluna cervical e lombar. Esta última, quando as crises chegam, as pernas ficam dormentes, ‘mortas’. Andar é quase impossível. Também tenho artrose bilateral no quadril. Em abril último operei o lado esquerdo. Durante a cirurgia, lesionaram o nervo fibular da perna esquerda. Meu pé esquerdo está sem sensibilidade. Manco ao caminhar. Não consigo ficar muito tempo em pé. Também venci uma trombose. Antes da cirurgia, porém, fui alertado pelo médico que poderia ter a perna amputada. Devido à lesão neurológica sinto dores frequentes no pé(declaração ao lado). E depois de tudo isso, duas semanas após a alta, minha esposa, Alessandra, sofreu um AVC isquêmico. Hoje, eu e ela temos que tomar remédios caros. Fora isso, por aqui temos os problemas que todas famílias têm: a reforma da casa que precisa ser feita; o conserto do carro que fica para depois; o investimento nas ferramentas de trabalho que são sempre adiados. Tudo porque falta dinheiro. Aliás, falta o dinheiro que é meu e está em forma de prédio vandalizado ou terreno com uma antena de rádio.

Enquanto os responsáveis pela empresa vivem suas vidas como se nada estivesse ocorrendo e sem que a Justiça alcance meios eficazes da quitação das dívidas, os ex-funcionários e suas famílias lidam diariamente com dificuldades financeiras, angústia, desânimo, sensação de fracasso, de impotência, indignação, incredulidade, humilhação e medo. Todos buscaram a Justiça do Trabalho. Porém, continuam desamparados por ela.(Texto: Marco Antônio Sapia)

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